14 Mar 2012

Anfiteatro 120

A conversa é-me demasiado familiar. Anos de um ensino de Economia alicerçado numa realidade paralela, espécie de distopia em que os "agentes" são todos racionais e maximizar o lucro é o objectivo único. Em que nada, mesmo nada, da estrutura social é tida em conta. Cheia de soluções com zero de aplicabilidade porque, lá esta, insistimos em ser pouco coerentes com as hipóteses dos modelos.

Um preconceito total contra os serviços públicos. Se és pobre é porque tomaste as opções erradas. Escolheste mal o curso, ou os pais, ou o país. Alguma coisa de errado fizeste. E se é assim, só tens de mudar. Qualquer forma de apoio vai ser um incentivo para continuares a não merecer melhor.

Ouço o governo e volto lá, ao anfiteatro 120. Repito: a conversa é-me demasiado familiar. E é mesmo por isso que me aterroriza.

9 Mar 2012

40 anos

Um orgulho imenso em ti, mana velha. Pela pessoa que és. Pelo que conseguiste e continuas a conseguir. Por não desistires de ser feliz. Sigamos, então, a viagem.


5 Mar 2012

A culpa não é das férias

Vou de férias (também) porque estou cansado, esgotado, preciso de uma pausa. Volto incapaz de ganhar ritmo, em negação permanente do regresso.

Sem ironia, isto tem tudo para correr bem.

21 Feb 2012

Lema por estes dias

2012: o mundo não sei, mas eu vou-me acabar*

*lido hoje numa t-shirt do bloco "corre atrás"

15 Feb 2012

Together we stand

O destino de um país na Europa é o destino de todos. Bem sei que esta é uma noção fora do alcance do nosso actual elenco governativo, mais interessados em passar por alunos esforçados (muito arrependidos das supostas tropelias) e obter a aprovação de quem consideram moralmente superior. Um comportamento consistente com o de um governo democraticamente eleito por uma nação soberana deve ser mais uma vítima do contexto de emergência, suponho.

Confesso que já ficava contente que entendessem de uma vez por todas que, insistindo neste caminho, já somos a Grécia. E que esse destino é uma questão de meses. Que parassem de proclamar, com um ar feliz, que os gregos estão muito pior do que nós. Não é pedir assim tanto, pois não?

13 Feb 2012

Abismo amanhã

O parlamento grego aprovou ontem mais medidas de austeridade, condição imposta pelas instituições internacionais para desbloquear mais um pacote de ajuda. Quase dois anos depois do 1º pacote de ajuda à Grécia, temos uma economia em colapso, um clima de contestação social cada vez mais agressivo e uma dinâmica de dívida que não tem solução à vista.

Nunca é demais repetir que a crise de dívida soberana europeia é uma consequência directa da crise financeira global de 2008. Principalmente porque a resposta europeia tem sido errada desde o início exactamente devido à incapacidade de identificar as verdadeiras causas. A facilidade com que se identificou a dívida pública como única culpada é, essencialmente, uma escolha ideológica, carecendo de racionalidade económica e levando a um agravar cada vez maior do problema. O recente pacto fiscal é apenas a última manifestação dessa irracionalidade.

A parede está mesmo aí à frente, mesmo com as medidas extraordinárias do BCE. A realidade tende a ser pouco conivente com devaneios ideológicos e o óbvio desprezo demonstrado pelos mecanismos de decisão democráticos por parte das instituições europeias só agrava a situação. Repetindo-me, só a visão do abismo pode fazer a política europeia inverter este rumo suicida. É esperar que não seja tarde demais.