16 Jul 2013

Dúvida

Uma pessoa que tem uma boa capacidade de análise de situações, mas não tem soluções, serve para quê?

24 Jun 2013

FED e zona euro

Depois da recente conferência de imprensa da Reserva Federal, não vejo ninguém discutir as consequências para a Europa do fim anunciado do programa de quantitative easing. Uma das formas de combater uma crise de dívida é através do que se chama "repressão financeira". Um mecanismo caracterizado por manter o nível da curva de taxas de juro artificialmente baixo, fazendo assim uma transferência de riqueza dos credores para os devedores.

As políticas extraordinárias da Reserva Federal não tinham como destinatário a Europa. No entanto, esta região beneficiou amplamente do que foi feito, como aliás foi visível no nível historicamente baixo que as taxas de juro dos países core da zona euro atingiram durante os últimos meses. Estas taxas de juro artificialmente baixas permitiram a estes países beneficiar do programa de quantitative easing, permitindo às autoridades alemãs colher os frutos sem ter de sujar as mãos, ao mesmo tempo que continuava a rasgar as vestes sempre que alguém na Europa sugeria que o BCE deveria estar a fazer a mesmíssima coisa.

Com a economia norte-americana aparentemente no bom caminho (desemprego em queda, mercado imobiliário em recuperação, défice orçamental em contracção superior às melhores expectativas, um PIB cuja discussão é se está a crescer a 2% ou 3% ao ano), é apenas natural que a FED inicie a sua estratégia de saída. O que são, claro, péssimas notícias para a Europa. Já, aliás, bem visíveis na subida considerável das taxas de juro em todos os países europeus.

Tentando resumir: a zona euro tem um banco central que está, na prática, proibido de realizar expansões da massa monetária; um conjunto de governos que assinou um pacto orçamental, que implica austeridade para todos - em diferentes graus, mas para todos - durante os próximos largos anos; uma economia privada ainda demasiado alavancada que, em muitos casos, nem sequer iniciou o necessário processo de menor utilização de crédito; um sistema financeiro mais capitalizado, mas ainda muito dependente do que será o andamento da economia. Um belo cocktail, portanto.

Sem o analgésico da FED, receio bem que venhamos a descobrir bem depressa que os elogios que toda a gente andou a fazer a Mario Draghi em 2012, devessem ter ido, não para este, mas sim para Ben Bernanke. Até à semana passada.

21 Jun 2013

Frases

"Sonhar sem pensar em concretizar sabe-me a autoengano."

Carlos Vaz Marques, Revista Expresso, 2013.06.15

20 Jun 2013

Limite

É dos livros de história que as crises económicas são mais severas quando provocadas por uma crise financeira. Quando juntamos a isto uma Europa que escolheu, e continua a escolher, não ter os instrumentos adequados para lidar com uma crise desta dimensão, não é difícil perceber porque é que o continente europeu está mergulhado na segunda recessão desde 2008.

Ainda assim, há uma enorme diferença entre a periferia e o centro da zona euro. As economias periféricas, reféns de atrasos crónicos com causas estruturais que não se revertem em décadas, quanto mais em anos, têm como única receita dada pelos seus credores (e aplicada entusiasticamente por governos como o nosso), empobrecerem. E quanto mais rápido, melhor.

Acontece que isto implica, como temos visto em Portugal, muitas coisas que só um estado de anestesia geral permite que aconteçam. Desde atropelos consecutivos à constituição, ao ataque cerrado às franjas mais desprotegidas da sociedade (como no caso do complemento solidário para idosos ou o RSI), ou à tentativa deliberada de colocar grupos uns contra os outros (funcionários pública e pensionistas). Exemplos aos quais podemos juntar uma dose de incompetência na gestão do país que ultrapassa as expectativas mais pessimistas.

Quando se coloca tudo em causa, excepto o dever de pagar as dívidas aos nossos credores, aumenta-se seriamente a probabilidade de, mais tarde ou mais cedo, decidirmos, simplesmente, não pagar. Não perceber isto, que o necessário processo de ajustamento tem de ser feito com bom senso, é trágico. Um dia destes, arriscamo-nos mesmo a descobrir qual é o limite para os sacrifícios.

19 Jun 2013

Para onde foi o bom senso?

Esta sensação estranha de o bom senso ter desaparecido de circulação paralisa, quando devia fazer o oposto. 

Temos o lado que argumenta ser este o único caminho, mesmo que não se descortine um rumo que não seja apenas a destruição de tudo o que cheire a serviço público ou proteção básica aos desfavorecidos. Uma mistura perigosa de fé num tal de mercado utópico que encontra, no desejo de desregulamentação e selvajaria, os desejos de vingança de uma direita que nunca perdoou nada do que foi conquistado pelos portugueses em democracia. 

Do lado oposto também encontro o medo. Desde as proclamações de independência nacional, advogando o abandono imediato do euro, como se esse não fosse um passo suicida na sociedade actual portuguesa, à exigência de rasgar tudo o que são os acordos que livremente assinámos, sem explicar que modelo de financiamento - e sobrevivência - defendem para para o país. 

O comum destes dois lados é ser impossível dialogar com qualquer um deles. A razoabilidade que é necessária para o fazer tem vindo a ser cada vez mais minada, muito pela actuação de um governo que, convencido de possuir uma qualquer missão salvífica, continua a alienar, um a um, vários sectores da sociedade portuguesa. 

Teremos de ser nós a por cobro a isto. Ou, não tarda muito, qualquer réstia de bom senso vai soçobrar ao fanatismo que domina actualmente o discurso público. 

14 Jun 2013

João

Conheci o João Pinto e Castro, de uma forma mais superficial do que gostaria. Estivemos juntos em dois blogues, o Sim no Referendo em 2007 e agora no Jugular, e encontrámo-nos umas 5 vezes, creio, entre jantares desses mesmos blogues e coisas assim. Mas eu conhecia-o há mais tempo. Li o "blogo existo" desde o seu início e ri, inquientei-me e aprendi muito com as suas palavras desde então. 

Tinha um cuidado enorme sempre que falava com ele, nessas ocasiões ou no twitter. Conhecia bem a sua inteligência, velocidade de raciocínio e capacidade de pensar de uma forma diferente e nunca consegui abandonar a timidez e o receio de dizer alguma coisa irremediavelmente estúpida. 

Morreu hoje. Vai fazer falta. Fica aqui o abraço que não fui capaz de lhe dar.