7 Sept 2004

Aborto


Poucos temas me tiram tanto do sério como o da despenalização do aborto. Muito por culpa destas perguntas que não me saem da cabeça:

Que terá passado pela cabeça de António Guterres quando, indo claramente contra a vontade da maioria da Assembleia da República (que votou favoravelmente a despenalização do aborto, lembram-se?) e do seu próprio partido, decidiu convocar um referendo para decidir sobre um assunto que era (quase unanimemente) considerado da esfera pessoal de cada um?

Quantas mulheres morreram por falta de condições sanitárias desde então? Quanta vergonha e medo se juntou à angústia, ao desespero da tomada de uma decisão que, acredito, muita das vezes raia o insuportável?

Que terá passado pela cabeça das pessoas para não irem votar, deixando que o referendo fosse decidido pelo Portugal dos campanários?

Mais que não seja, toda esta questão à volta do borndiep teve o mérito de nos relembrar o calibre da extrema direita que está no governo. A tal que prefere mandar fragatas, perdão, corvetas para mostrar o músculo "aquelas senhoras" (na deselegantíssima expressão do nosso Primeiro-ministro indigitado). A tal que, de lágrima no olho da emoção patriota, diz frases do género "o mar português tem princípios". A tal que conhece o caminho certo, que sabe como é que as pessoas se devem comportar, que é dona da moral, dos bons costumes, da tradição. E não contente com ser dona, exige que todos se comportem e pensem pela mesma bitola. Senão, não entram.

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