27 Apr 2012
Sempre
Não me lembro de um 25 de Abril assim, com este céu, esta chuva. Uma tristeza difícil de sacudir num dia de festa. Mesmo assim, milhares de pessoas estiveram lá, à chuva. Cada uma com as suas razões, claro. Atrevo-me a pensar que todas celebravam, pelo menos, a liberdade de escolhermos o nosso futuro.
16 Apr 2012
15 Apr 2012
14 Apr 2012
Steady
Quase quatro semanas depois, a vontade de fumar é a mesma. O que muda é a urgência de não o fazer, essa vai desaparecendo. Adoro as formas que temos de nos enganar, a tentação (cada vez maior) de fazermos batota connosco próprios.
10 Apr 2012
Modus
Escrevo uns parágrafos. Vão caindo primeiro frases, depois palavras. Quando acabo resta o cursor.
8 Apr 2012
diálogos pascais
personagens: bisavó, 83 anos; madalena, 5 anos.
- para onde vais avó?
- vou à missa, madalena.
- outra vez?? ainda ontem foste.
- sim, outra vez.
- não pode ser, avó. dois dias seguidos é demais. porque vais tantas vezes?
- porque me quero salvar e ir para o céu quando morrer.
- ó avó... (enquanto rebola os olhos). as pessoas quando morrem vão para o cemitério...!
- para onde vais avó?
- vou à missa, madalena.
- outra vez?? ainda ontem foste.
- sim, outra vez.
- não pode ser, avó. dois dias seguidos é demais. porque vais tantas vezes?
- porque me quero salvar e ir para o céu quando morrer.
- ó avó... (enquanto rebola os olhos). as pessoas quando morrem vão para o cemitério...!
4 Apr 2012
30 Mar 2012
14 Mar 2012
Anfiteatro 120
A conversa é-me demasiado familiar. Anos de um ensino de Economia alicerçado numa realidade paralela, espécie de distopia em que os "agentes" são todos racionais e maximizar o lucro é o objectivo único. Em que nada, mesmo nada, da estrutura social é tida em conta. Cheia de soluções com zero de aplicabilidade porque, lá esta, insistimos em ser pouco coerentes com as hipóteses dos modelos.
Um preconceito total contra os serviços públicos. Se és pobre é porque tomaste as opções erradas. Escolheste mal o curso, ou os pais, ou o país. Alguma coisa de errado fizeste. E se é assim, só tens de mudar. Qualquer forma de apoio vai ser um incentivo para continuares a não merecer melhor.
Ouço o governo e volto lá, ao anfiteatro 120. Repito: a conversa é-me demasiado familiar. E é mesmo por isso que me aterroriza.
Um preconceito total contra os serviços públicos. Se és pobre é porque tomaste as opções erradas. Escolheste mal o curso, ou os pais, ou o país. Alguma coisa de errado fizeste. E se é assim, só tens de mudar. Qualquer forma de apoio vai ser um incentivo para continuares a não merecer melhor.
Ouço o governo e volto lá, ao anfiteatro 120. Repito: a conversa é-me demasiado familiar. E é mesmo por isso que me aterroriza.
9 Mar 2012
40 anos
Um orgulho imenso em ti, mana velha. Pela pessoa que és. Pelo que conseguiste e continuas a conseguir. Por não desistires de ser feliz. Sigamos, então, a viagem.
5 Mar 2012
A culpa não é das férias
Vou de férias (também) porque estou cansado, esgotado, preciso de uma pausa. Volto incapaz de ganhar ritmo, em negação permanente do regresso.
Sem ironia, isto tem tudo para correr bem.
Sem ironia, isto tem tudo para correr bem.
21 Feb 2012
Lema por estes dias
2012: o mundo não sei, mas eu vou-me acabar*
*lido hoje numa t-shirt do bloco "corre atrás"
*lido hoje numa t-shirt do bloco "corre atrás"
19 Feb 2012
18 Feb 2012
16 Feb 2012
15 Feb 2012
Together we stand
O destino de um país na Europa é o destino de todos. Bem sei que esta é uma noção fora do alcance do nosso actual elenco governativo, mais interessados em passar por alunos esforçados (muito arrependidos das supostas tropelias) e obter a aprovação de quem consideram moralmente superior. Um comportamento consistente com o de um governo democraticamente eleito por uma nação soberana deve ser mais uma vítima do contexto de emergência, suponho.
Confesso que já ficava contente que entendessem de uma vez por todas que, insistindo neste caminho, já somos a Grécia. E que esse destino é uma questão de meses. Que parassem de proclamar, com um ar feliz, que os gregos estão muito pior do que nós. Não é pedir assim tanto, pois não?
Confesso que já ficava contente que entendessem de uma vez por todas que, insistindo neste caminho, já somos a Grécia. E que esse destino é uma questão de meses. Que parassem de proclamar, com um ar feliz, que os gregos estão muito pior do que nós. Não é pedir assim tanto, pois não?
14 Feb 2012
13 Feb 2012
Abismo amanhã
O parlamento grego aprovou ontem mais medidas de austeridade, condição imposta pelas instituições internacionais para desbloquear mais um pacote de ajuda. Quase dois anos depois do 1º pacote de ajuda à Grécia, temos uma economia em colapso, um clima de contestação social cada vez mais agressivo e uma dinâmica de dívida que não tem solução à vista.
Nunca é demais repetir que a crise de dívida soberana europeia é uma consequência directa da crise financeira global de 2008. Principalmente porque a resposta europeia tem sido errada desde o início exactamente devido à incapacidade de identificar as verdadeiras causas. A facilidade com que se identificou a dívida pública como única culpada é, essencialmente, uma escolha ideológica, carecendo de racionalidade económica e levando a um agravar cada vez maior do problema. O recente pacto fiscal é apenas a última manifestação dessa irracionalidade.
A parede está mesmo aí à frente, mesmo com as medidas extraordinárias do BCE. A realidade tende a ser pouco conivente com devaneios ideológicos e o óbvio desprezo demonstrado pelos mecanismos de decisão democráticos por parte das instituições europeias só agrava a situação. Repetindo-me, só a visão do abismo pode fazer a política europeia inverter este rumo suicida. É esperar que não seja tarde demais.
Nunca é demais repetir que a crise de dívida soberana europeia é uma consequência directa da crise financeira global de 2008. Principalmente porque a resposta europeia tem sido errada desde o início exactamente devido à incapacidade de identificar as verdadeiras causas. A facilidade com que se identificou a dívida pública como única culpada é, essencialmente, uma escolha ideológica, carecendo de racionalidade económica e levando a um agravar cada vez maior do problema. O recente pacto fiscal é apenas a última manifestação dessa irracionalidade.
A parede está mesmo aí à frente, mesmo com as medidas extraordinárias do BCE. A realidade tende a ser pouco conivente com devaneios ideológicos e o óbvio desprezo demonstrado pelos mecanismos de decisão democráticos por parte das instituições europeias só agrava a situação. Repetindo-me, só a visão do abismo pode fazer a política europeia inverter este rumo suicida. É esperar que não seja tarde demais.
11 Feb 2012
10 Feb 2012
"Conversas privadas"
Considerar a hipótese de o nosso ministro das finanças não saber que a sua conversa "privada" com Schaüble tinha uma probabilidade elevadíssima de ser escutada/gravada é passar-lhe um atestado de incompetência que não me parece razoável. Ou seja, acho que foi feita com o intuito de ser gravada e divulgada. O que, aliás, faz sentido quando consideramos aquilo que parece ser a estratégia do governo. Gaspar insiste em manter a fachada de que o governo vai cumprir na íntegra o memorando da troika porque o quer fazer e não porque a isso é obrigado. No entanto, é claro que 1) a probabilidade de Portugal conseguir voltar aos mercados em 2013 é próxima de zero; e 2) o impacto, em termos económicos, de ir mais longe que a troika vai impedir de forma definitiva que os objectivos orçamentais delineados sejam cumpridos.
Ter uma "conversa privada" ouvida por todos é uma boa forma de poder continuar a dizer uma coisa, enquanto convence os mercados de que seremos salvos se (quando) correr mal. Não é uma má jogada, não senhor. O facto de ter exposto Portugal à humilhação de agradecermos muito a ajuda dos senhores e de ainda ter levado com o ar de enfado de Schaüble, é apenas um pormenor para o nosso ministro, certamente.
Ter uma "conversa privada" ouvida por todos é uma boa forma de poder continuar a dizer uma coisa, enquanto convence os mercados de que seremos salvos se (quando) correr mal. Não é uma má jogada, não senhor. O facto de ter exposto Portugal à humilhação de agradecermos muito a ajuda dos senhores e de ainda ter levado com o ar de enfado de Schaüble, é apenas um pormenor para o nosso ministro, certamente.
9 Feb 2012
Somos a Grécia, somos
A tragédia grega - impossível fugir aos lugares-comuns - podia, ainda assim, ter uma vantagem para Portugal. Mostrar-nos que o caminho imposto pela troika se esquece de manter o paciente vivo enquanto lhe administra a suposta terapia que o irá curar.
Uma economia a entrar no 5º ano de recessão, a taxa de desemprego que duplicou para mais de 20% entre Novembro de 2010 e Novembro de 2011, receitas fiscais que colapsam apesar do aumento de impostos. Há diferenças grandes entre a economia grega e portuguesa? Sim. Mas a terapia é a mesma. E os efeitos, mesmo sendo menores, impedirão que consigamos reduzir o nosso nível de endividamento sobre o PIB. Que deveria ser o nosso objectivo final.
Entretanto, o nosso governo não só ignora o exemplo grego, como insiste em alardear que pretende ir além da troika. Há qualquer coisa de infantil nesta vontade cega de agradar, de pedir ainda mais castigo por um suposto mau comportamento anterior. O bom senso necessário para olhar em volta e perceber que a realidade indicia de forma clara que esta política está destinada a ser um desastre desapareceu em combate. Freud explica, provavelmente.
Uma economia a entrar no 5º ano de recessão, a taxa de desemprego que duplicou para mais de 20% entre Novembro de 2010 e Novembro de 2011, receitas fiscais que colapsam apesar do aumento de impostos. Há diferenças grandes entre a economia grega e portuguesa? Sim. Mas a terapia é a mesma. E os efeitos, mesmo sendo menores, impedirão que consigamos reduzir o nosso nível de endividamento sobre o PIB. Que deveria ser o nosso objectivo final.
Entretanto, o nosso governo não só ignora o exemplo grego, como insiste em alardear que pretende ir além da troika. Há qualquer coisa de infantil nesta vontade cega de agradar, de pedir ainda mais castigo por um suposto mau comportamento anterior. O bom senso necessário para olhar em volta e perceber que a realidade indicia de forma clara que esta política está destinada a ser um desastre desapareceu em combate. Freud explica, provavelmente.
Vão caindo as máscaras
"Não se pode fazer política com coisas tão sérias", terá dito Miguel Relvas.
Isto podia ser apenas populismo. Uma tentativa de capitalizar, de forma irresponsável, no ressentimento do povo face aos "políticos", essa classe responsável por todos os nossos males. Mas é pior. Acho mesmo que um ministro do nosso governo acredita de facto que as "coisas sérias" devem estar fora da política, do processo democrático de decisão em que ainda vivemos. Ainda.
Isto podia ser apenas populismo. Uma tentativa de capitalizar, de forma irresponsável, no ressentimento do povo face aos "políticos", essa classe responsável por todos os nossos males. Mas é pior. Acho mesmo que um ministro do nosso governo acredita de facto que as "coisas sérias" devem estar fora da política, do processo democrático de decisão em que ainda vivemos. Ainda.
Isto podia ser um tweet
O twitter quase acabou com este blog. Tenho pouca coisa a dizer que exceda os 140 caracteres. Ainda assim, tenho saudades disto.
24 Oct 2011
14 Oct 2011
Memória
Perante um cenário que era óbvio para todos, Passos Coelho escolheu, durante a recente campanha eleitoral, mentir aos portugueses relativamente ao que teria de ser feito para emagrecer a estrutura do Estado. Um excelente resumo disto mesmo pode ser lido aqui.
Convém não esquecer isto sempre que somos confrontados com o agora unânime discurso do "é inevitável".
Convém não esquecer isto sempre que somos confrontados com o agora unânime discurso do "é inevitável".
11 Oct 2011
Mistério
O modo como Cavaco Silva é bajulado neste país é algo para o qual não encontro explicação. São tantas as incoerências e mentiras, conjugadas numa sonsice sem paralelo ao longo de tanto tempo, que o facto de ainda lhe restar o que quer que seja de credibilidade junto da opinião pública e comunicação social só pode reflectir o quão atrasados estamos em termos de escrutínio público.
7 Oct 2011
Da força da grana que ergue e destrói coisas belas*
Não me lembro de termos tomado, como sociedade, a decisão de ficarmos reféns do actual sistema financeiro. Não deixa de ser, no entanto, onde nos encontramos. Depois de em 2008, na sequência da crise financeira global, os governos - todos nós, melhor dizendo - de quase todos os países terem intervido para salvar o sistema financeiro, encontramo-nos à beira de termos de o fazer outra vez. Numa posição mais frágil em termos de contas públicas, também por ser a segunda vez que os contribuintes são chamados a fazê-lo.
Acho, sinceramente, que é inevitável. As consequências imediatas de um colapso do sector financeiro são demasiado graves. Mas, já que não o fizemos depois de 2008, é crucial que discutamos agora, todos, o que temos de fazer para parar esta lógica de nos vermos obrigados a salvar um sector cujas decisões, em termos dos riscos que correm, não se regem pelo interesse público mas por um sistema de incentivos que premeia o imediatismo de curto prazo focado no lucro trimestral ou anual.
A mão invisível, a tal em que nos ensinam que a procura de interesses privados gera o melhor resultado para a sociedade, é em muitos casos uma falácia, como temos vindo dolorosamente a descobrir. Regulamos de uma forma clara várias indústrias que são essenciais para a vida em sociedade como a conhecemos. A electricidade, por exemplo. Consideramos, e bem, intolerável que erros de gestão, ou o assumir de maiores riscos para obter maiores lucros, signifique um aumento de probabilidade de ficarmos um tempo longo sem acesso a electricidade. O sector financeiro não é, neste sentido, assim tão diferente. Os balanços das instituições financeiras representam hoje, em muito países, várias vezes o PIB anual desse país. O grau de alavancagem, isto é, o tamanho do balanço face aos capitais próprios, mantém-se, mesmo depois da crise de 2008, em níveis historicamente altos. As diversas fusões e aquisições que foram ocorrendo nas últimas décadas criaram instituições cada vez maiores e, como tal, cada vez mais too big to fail. Para os nossos bolsos, entenda-se.
Se é verdade que o crescimento económico global das últimas décadas foi conseguido, em muito, devido ao crédito disponibilizado pela cada vez maior sofisticação do sistema financeiro, também é verdade que somos hoje confrontados com o preço a pagar. A nossa sociedade está, mais uma vez e apenas 3 anos depois, refém de um sistema financeiro que deixámos crescer desordenadamente para lá do que é razoável.
*Verso do poema Sampa, de Caetano Veloso
Acho, sinceramente, que é inevitável. As consequências imediatas de um colapso do sector financeiro são demasiado graves. Mas, já que não o fizemos depois de 2008, é crucial que discutamos agora, todos, o que temos de fazer para parar esta lógica de nos vermos obrigados a salvar um sector cujas decisões, em termos dos riscos que correm, não se regem pelo interesse público mas por um sistema de incentivos que premeia o imediatismo de curto prazo focado no lucro trimestral ou anual.
A mão invisível, a tal em que nos ensinam que a procura de interesses privados gera o melhor resultado para a sociedade, é em muitos casos uma falácia, como temos vindo dolorosamente a descobrir. Regulamos de uma forma clara várias indústrias que são essenciais para a vida em sociedade como a conhecemos. A electricidade, por exemplo. Consideramos, e bem, intolerável que erros de gestão, ou o assumir de maiores riscos para obter maiores lucros, signifique um aumento de probabilidade de ficarmos um tempo longo sem acesso a electricidade. O sector financeiro não é, neste sentido, assim tão diferente. Os balanços das instituições financeiras representam hoje, em muito países, várias vezes o PIB anual desse país. O grau de alavancagem, isto é, o tamanho do balanço face aos capitais próprios, mantém-se, mesmo depois da crise de 2008, em níveis historicamente altos. As diversas fusões e aquisições que foram ocorrendo nas últimas décadas criaram instituições cada vez maiores e, como tal, cada vez mais too big to fail. Para os nossos bolsos, entenda-se.
Se é verdade que o crescimento económico global das últimas décadas foi conseguido, em muito, devido ao crédito disponibilizado pela cada vez maior sofisticação do sistema financeiro, também é verdade que somos hoje confrontados com o preço a pagar. A nossa sociedade está, mais uma vez e apenas 3 anos depois, refém de um sistema financeiro que deixámos crescer desordenadamente para lá do que é razoável.
*Verso do poema Sampa, de Caetano Veloso
25 Sept 2011
22 Sept 2011
Desesperança
Sem respostas para além das de circunstância - o euro é vital para todos os europeus, não deixaremos cair um dos nossos membros - os líderes europeus enfrentam agora o que andaram a adiar nos últimos dois anos.
É penoso ver a Grécia anunciar novas medidas de austeridade semana após semana, cada vez mais contraproducentes, cruéis e irrealizáveis. Medidas impossíveis de implementar, seja quem for que esteja à frente da democracia grega. Todos sabemos isto.
A nova recessão que se desenha no horizonte faz com que não tenhamos o tempo necessário para criar os mecanismos de defesa da zona euro (os tais que descobrimos que faltavam com esta crise). Provavelmente, apenas nos restam medidas de emergência, plenas de incerteza, e todos os custos sociais, políticos e económicos que daí decorrerão.
É esta desesperança que se sente nas tais, cada vez mais frequentes (e isso também é significativo), declarações de circunstância.
É penoso ver a Grécia anunciar novas medidas de austeridade semana após semana, cada vez mais contraproducentes, cruéis e irrealizáveis. Medidas impossíveis de implementar, seja quem for que esteja à frente da democracia grega. Todos sabemos isto.
A nova recessão que se desenha no horizonte faz com que não tenhamos o tempo necessário para criar os mecanismos de defesa da zona euro (os tais que descobrimos que faltavam com esta crise). Provavelmente, apenas nos restam medidas de emergência, plenas de incerteza, e todos os custos sociais, políticos e económicos que daí decorrerão.
É esta desesperança que se sente nas tais, cada vez mais frequentes (e isso também é significativo), declarações de circunstância.
21 Sept 2011
Vergonha
Cavaco, que fala do sorriso das vacas e não de um dos maiores escândalos da política portuguesa. Passos que coloca, em público e explicitamente, o futuro do país dependente de um acontecimento que todos sabemos que vai acontecer (incumprimento da Grécia).
Um governo. Um presidente. Uma merda.
Um governo. Um presidente. Uma merda.
16 Sept 2011
Nota mental
Nunca subestimes o poder de um vício. Mas também não te esqueças que podes ser (e já foste) feliz não lhe cedendo.
15 Sept 2011
14 Sept 2011
Os sem-noção
Se alguma coisa puder ser explicada por estupidez, não procures outra explicação. Esta frase, que ouvi há muitos anos, tem uma actualidade particular quando se olha para os vários governos da Europa, a tentarem lidar com uma crise que, para ser sincero, nos ultrapassa a todos.
O que se passou, e continua a passar, foi exactamente o contrário. Se alguém se der ao trabalho de recolher as diversas declarações dos n responsáveis políticos desde o início da crise de dívida soberana, o que vai encontrar são acima de tudo recriminações e hesitações, numa confrangedora falta de capacidade de entender o ideal de construção europeia e escapar à mera gestão dos respectivos calendários eleitorais. E, já agora, de conceber e explicar os custos incalculáveis do fim da moeda única.
Mas, no fundo, a explicação da crise europeia é simples. Chama-se falta de confiança. Mesmo na ausência dos mecanismos necessários para enfrentar uma crise numa união monetária, creio que bastaria que os mercados (os investidores) acreditassem que os diversos membros da Zona Euro estariam inequivocamente na disposição de fazer o que fosse necessário para ajudar qualquer país membro que enfrentasse dificuldades conjunturais (como Portugal), ou mesmo estruturais (como a Grécia).
Aparentemente sem noção dos riscos que estão presentes e de como se torna cada vez mais difícil recuperar uma confiança que se andou a destruir no último ano e meio, a atitude da Europa tem sido, como dizer... Isso, estúpida.
Para a Mê
Há cinco anos atrás ainda não te conhecia, Mê. Daqui a umas horas, quando amanhã já tiver começado, faz então cinco anos que nasceste. De olhos pretos, enormes, abertos para o mundo.
Que a vida te seja leve, filha, escrevi aqui nesse dia. Hoje quero acrescentar: que te saibas manter assim, como és. Feliz, curiosa, determinada, justa, preocupada com os outros, sem medo de fazer perguntas. Amo-te.
Que a vida te seja leve, filha, escrevi aqui nesse dia. Hoje quero acrescentar: que te saibas manter assim, como és. Feliz, curiosa, determinada, justa, preocupada com os outros, sem medo de fazer perguntas. Amo-te.
13 Sept 2011
Sonsos ou pior
Começam a surgir as expectáveis declarações, por parte de membros do governo, da dimensão da crise internacional e do impacto negativo que esta pode ter no esforço de consolidação das contas públicas portuguesas.
Toda a campanha do psd (e cds) para as legislativas foi construída com base numa única narrativa. Os problemas de Portugal eram da exclusiva responsabilidade de Sócrates e (ainda assim, em menor escala, dada a dimensão do ódio personalizado) do ps.
Qualquer pessoa minimamente informada e que não estivesse cega por fanatismo sabia que não é assim. Claro que existe responsabilidade do governo anterior em não ter sido capaz de fazer um maior controlo sobre as contas públicas. Mas a dinâmica iniciada com a crise financeira global de 2008, criando uma recessão profunda que só não se transformou num episódio de depressão económica através da substituição do investimento e consumo privado (que desapareceu) por um aumento dos gastos públicos, reclamaria sempre vítimas. É natural que essas vítimas fossem os estados mais frágeis (porque mais endividados ou com uma estrutura de gastos públicos mais rígida), como a Grécia ou Portugal.
Deitar abaixo um governo e ganhar eleições é mais fácil do que governar um país. A situação actual torna ainda mais fáceis as duas primeiras e mais difícil a última. Quando chega a altura de lidar com a realidade, é necessário mudar o discurso e admitir finalmente que consolidarmos as contas públicas é condição necessária, mas está longe de ser condição suficiente para não entrarmos em incumprimento. Acabou, assim, o tempo da sonsice e de toda a desonestidade intelectual que esta acarretou.
Claro que há uma hipótese alternativa. A de estarmos a ser governados por pessoas que só agora entenderam uma conjuntura internacional que era óbvia. Para bem de todos nós, é melhor pensarmos que são mais sonsos que estúpidos.
Toda a campanha do psd (e cds) para as legislativas foi construída com base numa única narrativa. Os problemas de Portugal eram da exclusiva responsabilidade de Sócrates e (ainda assim, em menor escala, dada a dimensão do ódio personalizado) do ps.
Qualquer pessoa minimamente informada e que não estivesse cega por fanatismo sabia que não é assim. Claro que existe responsabilidade do governo anterior em não ter sido capaz de fazer um maior controlo sobre as contas públicas. Mas a dinâmica iniciada com a crise financeira global de 2008, criando uma recessão profunda que só não se transformou num episódio de depressão económica através da substituição do investimento e consumo privado (que desapareceu) por um aumento dos gastos públicos, reclamaria sempre vítimas. É natural que essas vítimas fossem os estados mais frágeis (porque mais endividados ou com uma estrutura de gastos públicos mais rígida), como a Grécia ou Portugal.
Deitar abaixo um governo e ganhar eleições é mais fácil do que governar um país. A situação actual torna ainda mais fáceis as duas primeiras e mais difícil a última. Quando chega a altura de lidar com a realidade, é necessário mudar o discurso e admitir finalmente que consolidarmos as contas públicas é condição necessária, mas está longe de ser condição suficiente para não entrarmos em incumprimento. Acabou, assim, o tempo da sonsice e de toda a desonestidade intelectual que esta acarretou.
Claro que há uma hipótese alternativa. A de estarmos a ser governados por pessoas que só agora entenderam uma conjuntura internacional que era óbvia. Para bem de todos nós, é melhor pensarmos que são mais sonsos que estúpidos.
Quanto ao mundo, não sei
Relvas dizia hoje, na TSF, que o mundo olha para Portugal de maneira diferente desde há 2 meses. Quanto ao mundo, não sei, mas eu olho, sim. Com a tristeza profunda de saber que, corra bem ou mal, seremos um país pior nos próximos anos.
Da complacência
A Europa - o projecto de construção de uma união europeia - faz parte das nossas vidas. Mesmo os nascidos na década de 60, passaram já a maior parte da sua vida inseridos neste projecto. Ainda mais para as populações dos países fundadores da (então) CEE.
Sabemos que a habituação gera complacência. Os perus, alimentados todos os dias até chegar o Natal, ficam certamente surpreendidos no dia em que a mesma mão que lhes trazia a comida se apresenta agora com uma faca. A complacência gera riscos, quando o facto de não conseguirmos imaginar que podia ser de outra maneira, nos faz deixar de dar valor ao que temos actualmente. Quando apenas vemos os custos que determinada situação traz, sem olharmos sequer uma vez para todos os benefícios - os tais que damos por adquiridos.
Parece-me impossível, num debate racional, defender que uma dissolução da zona euro, e o enorme passo atrás que significaria para a integração europeia, seja a melhor solução. Já escrevi aqui que a "solução" encontrada na cimeira europeia de final de Julho poderia, na melhor das hipóteses, comprar tempo à União Europeia para iniciar as reformas, no seu desenho institucional, que nos protegessem a todos desta e de futuras crises económicas e financeiras. A melhor das hipóteses, como seria de esperar, não se concretizou. Nem uma discussão profunda do que é preciso mudar foi iniciada, nem os mercados financeiros - também assustados por uma forte desaceleração sentida no crescimento económico global - têm tempo para nos dar.
Quando chegar o momento em que não é possível adiar mais os problemas, teremos de fazer uma escolha, se calhar das mais importantes em que participaremos na nossa vida. Queremos estar juntos, mais fortes, mais prósperos, em paz. Ou não.
Esse momento, que parece estar cada dia mais próximo, vai exigir líderes fortes. Ou, se calhar, apenas pessoas que entendem o quanto todos temos a perder quando deixamos os nossos parceiros cair.
Sabemos que a habituação gera complacência. Os perus, alimentados todos os dias até chegar o Natal, ficam certamente surpreendidos no dia em que a mesma mão que lhes trazia a comida se apresenta agora com uma faca. A complacência gera riscos, quando o facto de não conseguirmos imaginar que podia ser de outra maneira, nos faz deixar de dar valor ao que temos actualmente. Quando apenas vemos os custos que determinada situação traz, sem olharmos sequer uma vez para todos os benefícios - os tais que damos por adquiridos.
Parece-me impossível, num debate racional, defender que uma dissolução da zona euro, e o enorme passo atrás que significaria para a integração europeia, seja a melhor solução. Já escrevi aqui que a "solução" encontrada na cimeira europeia de final de Julho poderia, na melhor das hipóteses, comprar tempo à União Europeia para iniciar as reformas, no seu desenho institucional, que nos protegessem a todos desta e de futuras crises económicas e financeiras. A melhor das hipóteses, como seria de esperar, não se concretizou. Nem uma discussão profunda do que é preciso mudar foi iniciada, nem os mercados financeiros - também assustados por uma forte desaceleração sentida no crescimento económico global - têm tempo para nos dar.
Quando chegar o momento em que não é possível adiar mais os problemas, teremos de fazer uma escolha, se calhar das mais importantes em que participaremos na nossa vida. Queremos estar juntos, mais fortes, mais prósperos, em paz. Ou não.
Esse momento, que parece estar cada dia mais próximo, vai exigir líderes fortes. Ou, se calhar, apenas pessoas que entendem o quanto todos temos a perder quando deixamos os nossos parceiros cair.
11 Sept 2011
Nós e os outros
Os gregos não prestam, toda a gente sabe isso. Era óbvio que isto ia acontecer. Ajudar a Grécia é apenas deitar dinheiro à rua, eles não querem trabalhar.
Tudo frases que ouvi, na última semana, a diferentes pessoas em Portugal. Tudo pessoas supostamente informadas que têm o dever de não ceder a preconceitos, que não passam disso mesmo, formas simplistas e, por isso, estúpidas de ver o mundo. Claro que é preciosa a ajuda da irresponsabilidade de tantos responsáveis políticos europeus que insistem em ver a União Europeia como "nós, os virtuosos" e os "outros, os malandros".
Os gregos. Os pretos. Os ciganos. Os judeus. Os portugueses. Os alemães. Como é que estamos ainda aqui, nesta concepção de que um povo, um país, tem características universais que tornam o seu destino, cedo ou tarde, imutável? Se me preocupam as consequências sociais e económicas de um potencial desmembramento da Zona Euro, aterroriza-me que, tantos séculos de atrocidades depois, ainda aceitemos como explicação para o que quer que seja o abjecto "está-lhes na massa do sangue".
Tudo frases que ouvi, na última semana, a diferentes pessoas em Portugal. Tudo pessoas supostamente informadas que têm o dever de não ceder a preconceitos, que não passam disso mesmo, formas simplistas e, por isso, estúpidas de ver o mundo. Claro que é preciosa a ajuda da irresponsabilidade de tantos responsáveis políticos europeus que insistem em ver a União Europeia como "nós, os virtuosos" e os "outros, os malandros".
Os gregos. Os pretos. Os ciganos. Os judeus. Os portugueses. Os alemães. Como é que estamos ainda aqui, nesta concepção de que um povo, um país, tem características universais que tornam o seu destino, cedo ou tarde, imutável? Se me preocupam as consequências sociais e económicas de um potencial desmembramento da Zona Euro, aterroriza-me que, tantos séculos de atrocidades depois, ainda aceitemos como explicação para o que quer que seja o abjecto "está-lhes na massa do sangue".
2 Sept 2011
26 Aug 2011
Bom senso
O discurso de Ben Bernanke hoje em Jackson Hole tem o condão de lançar definitivamente para a agenda política a necessidade de evitar que uma política fiscal altamente contraccionista (nos EUA e na Europa) ajude a provocar uma nova recessão global. A resolução do problema do excesso de dívida (que será sempre um tema de médio/longo prazo) será muito mais difícil, se não impossível, num cenário de crescimento nulo ou negativo.
Alvalade
Ontem foi o regresso a Alvalade, na esperança de que o nível de sofrimento pudesse ser inferior ao dos dois últimos anos. Foi. Embora, a espaços, desse a sensação de que continuamos sem treinador (como nos últimos dois anos), já deu para voltar a ver - de vez em quando - o Sporting a jogar futebol. Capel tem jeito para jogar e para criar empatia com as bancadas (o que não deve, de maneira nenhuma, ser menosprezado). Izmailov é, sem surpresa, o melhor reforço da época.
Mas era bom que aumentássemos o nível de tolerância para com a equipa. Os assobios foram mais que muitos e isso tem de nos envergonhar, enquanto sócios e adeptos. Se é certo que foram dois anos desesperantes, é preciso dar tempo quando se está a construir uma equipa quase de raiz. É verdade que a insistência em Djaló e Postiga desafia a compreensão humana. Mas, se não há nunca justificação para assobiar aquelas camisolas, ainda menos quando é claro que o que é preciso é tempo e apoio incondicional.
Mas era bom que aumentássemos o nível de tolerância para com a equipa. Os assobios foram mais que muitos e isso tem de nos envergonhar, enquanto sócios e adeptos. Se é certo que foram dois anos desesperantes, é preciso dar tempo quando se está a construir uma equipa quase de raiz. É verdade que a insistência em Djaló e Postiga desafia a compreensão humana. Mas, se não há nunca justificação para assobiar aquelas camisolas, ainda menos quando é claro que o que é preciso é tempo e apoio incondicional.
25 Aug 2011
2 lições da semana
1) Nunca deixes que o ressentimento perdure e te domine.
2) Evita que a natural presunção da boa-fé alheia resulte em que te apanhem desprevenido.
2) Evita que a natural presunção da boa-fé alheia resulte em que te apanhem desprevenido.
24 Aug 2011
Confusos?
Sim, é preciso reduzir o nível de endividamento. E sim, austeridade em excesso é a melhor maneira de garantir que os níveis de endividamento não serão reduzidos. Confusos? Não se preocupem, os líderes europeus também.
23 Aug 2011
Desta para melhor
"com esta da austeridade, meu senhor, nem sequer dá para ir desta pra melhor", cantava Sérgio Godinho há uns anos, e cheio de razão. Ignorando o significado corrente da expressão, é difícil perceber como é que medidas de austeridade de toda a gente ao mesmo tempo nos levarão, literalmente, desta para melhor.
Sem crescimento ou inflação, por todo o mundo desenvolvido estar a contrair simultaneamente a política fiscal, vamos todos ficar (muito) mais pobres e tão (ou mais) endividados do que no início desta crise. E, mais grave, colocamos o processo de integração europeia cada vez mais em risco. É que casa onde não há pão, e tal.
Sem crescimento ou inflação, por todo o mundo desenvolvido estar a contrair simultaneamente a política fiscal, vamos todos ficar (muito) mais pobres e tão (ou mais) endividados do que no início desta crise. E, mais grave, colocamos o processo de integração europeia cada vez mais em risco. É que casa onde não há pão, e tal.
20 Aug 2011
Fim de férias (III)
E para fechar a estadia no Algarve, uma tempestade das antigas: vento, chuva, relâmpagos e trovões. É para eu não notar a diferença quando os mercados abrirem na 2ª feira, aposto.
19 Aug 2011
Fim de férias (II)
Ver o ouro em máximos históricos ao mesmo tempo que as taxas de juro de países considerados refúgio (EUA, Alemanha) atingem mínimos é o pior sinal que poderíamos ver. Receios de recessão global e de saúde do sistema financeiro. Vai ser um regresso interessante. No sentido da maldição chinesa, claro.
Fim de férias
Tudo parece mais simples frente ao mar, talvez por que sei ser apenas um momento de pausa.
2 Aug 2011
Álvaro
Quando o Álvaro aceitou ser ministro da economia e de mais uma data de coisas, escrevi que ia ser engraçado ver o choque entre tudo o que andou a defender na campanha e a realidade do que é ser responsável pela governação de uma área fulcral para o nosso país. Enganei-me.
Não tem nada de engraçado ver um rol de soundbites - como a reforma ao Sol, a Flórida da Europa ou as exportações representarem 50% do PIB - serem apresentadas como algumas das pedras-chave da política do governo para esta área. Ainda menos, acompanhadas da deselegância profunda de mandar umas bocas sobre a "opulência" encontrada, ao mesmo tempo que tenta justificar o salário de uma nova "super" chefe de gabinete. Se já estávamos conversados sobre as políticas, ficámos agora conversados sobre o estilo que podemos esperar.
Não tem nada de engraçado ver um rol de soundbites - como a reforma ao Sol, a Flórida da Europa ou as exportações representarem 50% do PIB - serem apresentadas como algumas das pedras-chave da política do governo para esta área. Ainda menos, acompanhadas da deselegância profunda de mandar umas bocas sobre a "opulência" encontrada, ao mesmo tempo que tenta justificar o salário de uma nova "super" chefe de gabinete. Se já estávamos conversados sobre as políticas, ficámos agora conversados sobre o estilo que podemos esperar.
Entre a frigideira e o fogo
Temos um número crescente de países a ter de diminuir o nível de dívida utilizado (pública e privada, embora esta última nunca esteja nos radares políticos e noticiosos), depois de décadas de excessos e da necessidade de conter a crise financeira global de 2008. O "bom caminho", elogiado por quem insiste numa concepção mesquinha da economia, é representado pela austeridade - diminuir a dívida através de cortes na despesa do estado e das famílias e as comparações com um orçamento familiar pululam por aí, sempre num tom muito educativo. De facto, se o nível de receita e despesa no meu orçamento familiar estiver desequilibrado, eu posso cortar a despesa até chegar ao equilíbrio, sem levar em conta o impacto que esse corte terá na parte da receita. Já quando temos uma contracção simultânea na despesa de todos os agentes (estado incluído), não é difícil perceber que isso tem um impacto na economia, isto é, nos rendimentos de toda a gente. Daí o paradoxo que se verifica quando todos os agentes aumentam simultaneamente a sua taxa de poupança: a taxa de poupança sobre o rendimento, de facto, diminui. Ou seja, a austeridade, quando aplicada de uma forma cega e moralista, corre o sério risco de nos tornar a todos mais pobres e tão ou mais endividados do que estávamos quando iniciámos o processo.
Temos, assim, uma dívida insustentável e uma solução que, pelo seu radicalismo, tende a piorar o problema. Deixarmos que surjam taxas de inflação mais altas (uma heresia só comparável a defender que o estado tem um papel a desempenhar na economia), pode bem vir a ser a única solução que nos resta. Mas isso implicaria uma reformulação total das actuais instituições europeias.
Temos, assim, uma dívida insustentável e uma solução que, pelo seu radicalismo, tende a piorar o problema. Deixarmos que surjam taxas de inflação mais altas (uma heresia só comparável a defender que o estado tem um papel a desempenhar na economia), pode bem vir a ser a única solução que nos resta. Mas isso implicaria uma reformulação total das actuais instituições europeias.
22 Jul 2011
E agora, Europa?
A União Europeia poderá ter comprado algum tempo com a cimeira de ontem. A demonstração de unidade e de vontade em enfrentar o problema é, por incrível que pareça, uma novidade. O facto de vir tarde, e desse atraso ter custos muito significativos (entre os quais a necessidade de realizar uma intervenção externa em Portugal), não faz com que esta resposta deixe de ser uma boa notícia.
No entanto, e muito ao jeito destas cimeiras, há respostas fundamentais que não foram dadas. Para que o fundo europeu funcione como uma barreira de protecção a países como Espanha e Itália, vai precisar de bolsos bem fundos, à semelhança do que aconteceu com o TARP. Estão os países europeus (com a Alemanha à cabeça) na disposição de desembolsar os fundos necessários? O ignorar do impacto de uma potencial declaração de um evento de crédito na Grécia (bem como a promessa de este ser o último pacote de ajuda) também parecem ser consequência do wishful thinking que muitas vezes domina os corredores de Bruxelas.
Ainda assim, os mercados parecem estar, para já, a dar o beneficio da dúvida à solução apresentada. Convinha que este fosse usado para tentarmos resolver alguns dos problemas de arquitectura institucional que são causa, tanto do problema, como da incapacidade de resposta até agora. A redefinição do papel do BCE, passos progressivos de harmonização fiscal e uma visão global, e não país a país, dos desequilíbrios existentes, são essenciais para que o tempo da União Europeia não venha a ter um fim abrupto.
No entanto, e muito ao jeito destas cimeiras, há respostas fundamentais que não foram dadas. Para que o fundo europeu funcione como uma barreira de protecção a países como Espanha e Itália, vai precisar de bolsos bem fundos, à semelhança do que aconteceu com o TARP. Estão os países europeus (com a Alemanha à cabeça) na disposição de desembolsar os fundos necessários? O ignorar do impacto de uma potencial declaração de um evento de crédito na Grécia (bem como a promessa de este ser o último pacote de ajuda) também parecem ser consequência do wishful thinking que muitas vezes domina os corredores de Bruxelas.
Ainda assim, os mercados parecem estar, para já, a dar o beneficio da dúvida à solução apresentada. Convinha que este fosse usado para tentarmos resolver alguns dos problemas de arquitectura institucional que são causa, tanto do problema, como da incapacidade de resposta até agora. A redefinição do papel do BCE, passos progressivos de harmonização fiscal e uma visão global, e não país a país, dos desequilíbrios existentes, são essenciais para que o tempo da União Europeia não venha a ter um fim abrupto.
14 Jul 2011
Era bom
O impasse domina a actualidade, tanto na resolução da crise de dívida soberana na União Europeia, como no aumento do tecto de dívida nos EUA. Qualquer um destes problemas tem consequências sistémicas que, honestamente, ninguém pode prever.
Era bom que não estivéssemos todos, dentro de poucos meses, a perguntar como foi possível tamanha irresponsabilidade de tantos ao mesmo tempo. Até porque, mesmo não sendo politicamente fáceis, as soluções existem. Manter o impasse é o que menos interessa a todos.
Era bom que não estivéssemos todos, dentro de poucos meses, a perguntar como foi possível tamanha irresponsabilidade de tantos ao mesmo tempo. Até porque, mesmo não sendo politicamente fáceis, as soluções existem. Manter o impasse é o que menos interessa a todos.
13 Jul 2011
Risco alto
Todos sabemos que, mais cedo ou mais tarde, a União Europeia vai ter de fazer uma escolha. As não-soluções que foram sendo apresentadas desde o início da crise grega foram sempre entendidas, por todos, como um sucessivo adiar do problema, até serem reunidas umas "fantasiosas" condições que nunca ninguém explicou quais seriam.
O tempo para continuar a adiar chegou ao fim. A mensagem que os investidores em dívida pública de países europeus fizeram passar durante as últimas duas semanas foi clara: a inacção europeia faz com que cada país da zona euro seja avaliado exclusivamente pela sua capacidade em cumprir o pagamento da respectiva dívida, ainda para mais num contexto de sinais visíveis de recuo no processo de integração a que assistimos nas últimas décadas.
No entanto, entre o desejo por uma solução e a capacidade de a realizar, há um bom número de obstáculos. O acordo de um número grande de países, com calendários eleitorais diversos, obriga a uma gestão para a qual já não existe tempo. Acresce que em parte desses países, a opinião pública foi bombardeada com a demagogia da dicotomia moral entre os virtuosos do Norte e os preguiçosos do Sul. Agora o discurso vai ter de ser totalmente invertido, alertando finalmente os eleitores para o facto de os custos de uma solução serem muito inferiores aos catastróficos custos de um desmantelar da zona euro (sim, é isso que está em causa). Só podemos esperar que não seja tarde demais.
O tempo para continuar a adiar chegou ao fim. A mensagem que os investidores em dívida pública de países europeus fizeram passar durante as últimas duas semanas foi clara: a inacção europeia faz com que cada país da zona euro seja avaliado exclusivamente pela sua capacidade em cumprir o pagamento da respectiva dívida, ainda para mais num contexto de sinais visíveis de recuo no processo de integração a que assistimos nas últimas décadas.
No entanto, entre o desejo por uma solução e a capacidade de a realizar, há um bom número de obstáculos. O acordo de um número grande de países, com calendários eleitorais diversos, obriga a uma gestão para a qual já não existe tempo. Acresce que em parte desses países, a opinião pública foi bombardeada com a demagogia da dicotomia moral entre os virtuosos do Norte e os preguiçosos do Sul. Agora o discurso vai ter de ser totalmente invertido, alertando finalmente os eleitores para o facto de os custos de uma solução serem muito inferiores aos catastróficos custos de um desmantelar da zona euro (sim, é isso que está em causa). Só podemos esperar que não seja tarde demais.
11 Jul 2011
Assis e a afectividade
«Repugna-me a ideia de que é possível transformar a vida política num imenso magma de afectividade, porque isso é a redução e a destruição da política. A política não é a dimensão do afectivo, isso é outra dimensão das nossas vidas. A política é a dimensão da discussão das ideias, do debate, da contraposição, das convergências e divergências em torno de projectos, de ideias e propostas»
Concordo muito com estas palavras de Francisco Assis, que fui buscar à notícia da TSF. E, já agora, outra coisa que me repugna é o aproveitamento que está a ser feito através de títulos enganadores, próprios de quem apenas vive do (e no) soundbite.
Concordo muito com estas palavras de Francisco Assis, que fui buscar à notícia da TSF. E, já agora, outra coisa que me repugna é o aproveitamento que está a ser feito através de títulos enganadores, próprios de quem apenas vive do (e no) soundbite.
8 Jul 2011
7 Jul 2011
É pena
Pensar dá imenso trabalho. Mais ainda quando corremos o risco de chegar à conclusão que estamos errados.
6 Jul 2011
Moody's
A Moody's diz, resumidamente, três coisas:
1) A deterioração da situação na Grécia pode vir a ter consequências graves para Portugal e continua a não existir uma solução sistémica por parte da Europa para o problema da crise de dívida soberana.
2) As medidas contidas no memorando de entendimento têm um elevado risco de execução e não é claro que tentem resolver no longo-prazo o principal problema da economia portuguesa: o fraco crescimento económico (no curto prazo, estas medidas são obviamente recessivas).
3) O grau de alavancagem do sistema financeiro português é uma potencial preocupação acrescida para as contas públicas portuguesas.
Tenho as maiores reservas relativamente ao actual papel das agências de rating no sistema económico global, nomeadamente em relação às profecias auto-realizáveis. Mas dizer que não existem argumentos para um corte de rating (a dimensão do corte é outra discussão) pertence à já típica estratégia do pensamento mágico.
1) A deterioração da situação na Grécia pode vir a ter consequências graves para Portugal e continua a não existir uma solução sistémica por parte da Europa para o problema da crise de dívida soberana.
2) As medidas contidas no memorando de entendimento têm um elevado risco de execução e não é claro que tentem resolver no longo-prazo o principal problema da economia portuguesa: o fraco crescimento económico (no curto prazo, estas medidas são obviamente recessivas).
3) O grau de alavancagem do sistema financeiro português é uma potencial preocupação acrescida para as contas públicas portuguesas.
Tenho as maiores reservas relativamente ao actual papel das agências de rating no sistema económico global, nomeadamente em relação às profecias auto-realizáveis. Mas dizer que não existem argumentos para um corte de rating (a dimensão do corte é outra discussão) pertence à já típica estratégia do pensamento mágico.
Coisas que deviam ser simples
Quando estamos anos a afirmar que a acção concreta de um governo (e em especial de uma pessoa) é a única causa de todos os males, não nos podemos depois queixar de sermos avaliados pela mesma bitola.
4 Jul 2011
Política
O tom de governo de salvação nacional a que assistimos no final da semana passada, durante o debate parlamentar sobre o programa do governo, era de esperar. Assenta particularmente bem às bancadas que formam a actual maioria, de repente imbuídas de um espírito de apelo à responsabilidade que, curiosamente, descobriram agora ser importante para o destino do país.
Mal estaria a oposição, e aqui refiro-me ao PS, se decidisse usar o mesmo tipo de tácticas (criadas pelo PSD, PR e outras forças vivas da nação) que levaram à queda do anterior governo e ao agravar significativo da crise em que estamos mergulhados.
No entanto, não faltava mais nada que se equivalesse a legitimidade para governar ao pedido de um comportamento por parte da oposição que, sob a capa de uma "posição responsável", significasse a anuência a todas as medidas que este governo pretenda implementar. Não só porque nem tudo foi sufragado em eleições - qual o custo eleitoral do corte do subsídio de Natal? -, como também porque se não existem grandes dúvidas sobre a necessidade de reduzir a despesa pública, a forma como esta redução será feita é tudo menos irrelevante. A unanimidade desejada por alguns é, cedo ou tarde, o pesadelo de todos. A "salvação nacional" só pode vir do confronto de ideias. Da Política, portanto.
Mal estaria a oposição, e aqui refiro-me ao PS, se decidisse usar o mesmo tipo de tácticas (criadas pelo PSD, PR e outras forças vivas da nação) que levaram à queda do anterior governo e ao agravar significativo da crise em que estamos mergulhados.
No entanto, não faltava mais nada que se equivalesse a legitimidade para governar ao pedido de um comportamento por parte da oposição que, sob a capa de uma "posição responsável", significasse a anuência a todas as medidas que este governo pretenda implementar. Não só porque nem tudo foi sufragado em eleições - qual o custo eleitoral do corte do subsídio de Natal? -, como também porque se não existem grandes dúvidas sobre a necessidade de reduzir a despesa pública, a forma como esta redução será feita é tudo menos irrelevante. A unanimidade desejada por alguns é, cedo ou tarde, o pesadelo de todos. A "salvação nacional" só pode vir do confronto de ideias. Da Política, portanto.
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