A gaffe do novo referendo à IVG, a história sobre o concurso público que tinha tido um "feliz contemplado" que era afinal a Universidade Católica, os avanços e recuos típicos de quem não fez as contas relativamente à descida da TSU... Até percebo que Passos queira liberalizar os despedimentos. Deve estar a pensar nos seus assessores, com certeza.
27 May 2011
24 May 2011
Campanhas
Não sei se a política de terra queimada que este PSD tem vindo a usar na campanha é mesmo uma questão de estilo, ou apenas uma reacção ao facto de estas eleições estarem a ser mais renhidas do que o que era previsível quando a crise política foi desencadeada.
O que sei é que o insulto ao adversário através de comparações abjectas e a insistência em reduzir tudo - mesmo tudo - a ataques ao carácter, em vez de estarmos a discutir que país queremos depois de 5 de Junho, baixa cada vez mais o nível da política portuguesa. E isso tem consequências demasiado sérias para quem quer que seja o partido escolhido para governar.
O que sei é que o insulto ao adversário através de comparações abjectas e a insistência em reduzir tudo - mesmo tudo - a ataques ao carácter, em vez de estarmos a discutir que país queremos depois de 5 de Junho, baixa cada vez mais o nível da política portuguesa. E isso tem consequências demasiado sérias para quem quer que seja o partido escolhido para governar.
23 May 2011
E agora, Europa?
Que surpresa. É triste os líderes europeus precisarem dos mercados para chegarem à conclusão que a "solução" de sucessivos pacotes de austeridade sobre as economias em maior desequilíbrio, conjugado com empréstimos a taxas de juro elevadas (com doses massivas de moralidade à mistura), não resolvem o problema, só o agravam.
Populismo
Ontem Passos Coelho dizia que as críticas feitas por Sócrates ao programa do PSD na área da saúde eram um sinal de desespero, porque vinham de alguém que encerrou maternidades e centros de saúde em vários pontos do país.
Isto é populismo no seu nível mais baixo. A não ser que Passos Coelho ache mesmo que esses encerramentos não representaram uma efectiva melhoria da saúde pública em Portugal. Altura em que passa a ser apenas ignorância. O que, para um potencial primeiro ministro, é ainda mais grave.
Isto é populismo no seu nível mais baixo. A não ser que Passos Coelho ache mesmo que esses encerramentos não representaram uma efectiva melhoria da saúde pública em Portugal. Altura em que passa a ser apenas ignorância. O que, para um potencial primeiro ministro, é ainda mais grave.
19 May 2011
TSU e pensamento mágico
O pensamento mágico surge quando achamos que por desejarmos muito que uma coisa aconteça ela vai mesmo acontecer, sendo a realidade em que esse desejo se insere algo meramente acessório.
Isto acontece muito no ensino da economia. Muitos dos modelos e teorias em voga simplificam até à exaustão para terem os resultados que são esperados à priori. Se em termos académicos, tal não é especialmente grave e pode ajudar a entender um mundo cada vez mais complexo, quando passamos à aplicação prática - isto é, política - de tais medidas, tudo muda. É que a política tem de lidar com a realidade. E o enviesamento ideológico generalizado do ensino da economia dá credibilidade a estudos com pouca ou nenhuma aplicação real.
O defesa da taxa social única tem características de pensamento mágico. Para além da dificuldade em colmatar a receita perdida com um eventual corte num contexto orçamental dramático (esquecendo assim o contexto em que tal medida seria aplicada), trata-se essencialmente de dar liquidez ao sector empresarial. Que, assim, é suposto ser mais competitivo nas exportações - através de uma redução dos custos com o trabalho.
Ora, era importante perceber se os custos com o trabalho são uma parte relevante da falta de competitividade portuguesa. Não conheço dados que o sustentem e custos salariais elevados não me parece ser um problema premente em Portugal. Para além de que competir via baixos custos salariais é uma estratégia, como dizer..., parva (por ser impossível ganhar essa batalha, felizmente, aliás). Mas fundamentalmente, nada garante que a descida da taxa social única não seja apenas um cheque em branco dado pelos contribuintes às empresas do país. Até podemos acreditar que as empresas façam a coisa certa e produzam e exportem mais e contratem mais pessoas, mas não creio que estejamos em altura de apostar recursos dolorosamente escassos em wishful thinking.
Isto acontece muito no ensino da economia. Muitos dos modelos e teorias em voga simplificam até à exaustão para terem os resultados que são esperados à priori. Se em termos académicos, tal não é especialmente grave e pode ajudar a entender um mundo cada vez mais complexo, quando passamos à aplicação prática - isto é, política - de tais medidas, tudo muda. É que a política tem de lidar com a realidade. E o enviesamento ideológico generalizado do ensino da economia dá credibilidade a estudos com pouca ou nenhuma aplicação real.
O defesa da taxa social única tem características de pensamento mágico. Para além da dificuldade em colmatar a receita perdida com um eventual corte num contexto orçamental dramático (esquecendo assim o contexto em que tal medida seria aplicada), trata-se essencialmente de dar liquidez ao sector empresarial. Que, assim, é suposto ser mais competitivo nas exportações - através de uma redução dos custos com o trabalho.
Ora, era importante perceber se os custos com o trabalho são uma parte relevante da falta de competitividade portuguesa. Não conheço dados que o sustentem e custos salariais elevados não me parece ser um problema premente em Portugal. Para além de que competir via baixos custos salariais é uma estratégia, como dizer..., parva (por ser impossível ganhar essa batalha, felizmente, aliás). Mas fundamentalmente, nada garante que a descida da taxa social única não seja apenas um cheque em branco dado pelos contribuintes às empresas do país. Até podemos acreditar que as empresas façam a coisa certa e produzam e exportem mais e contratem mais pessoas, mas não creio que estejamos em altura de apostar recursos dolorosamente escassos em wishful thinking.
17 May 2011
Sabedoria
Vem no Kierkegaard: casa ou não te cases, vais arrepender-te; ri-te ou chora com a estupidez do mundo, vais arrepender-te; confia numa rapariga ou não confies nela, vais arrepender-te; mata-te ou não te mates, vais arrepender-te. «A isto se resume, cavalheiros, a sabedoria».
Pedro Mexia, Lei Seca
Verdade. A partir do momento em que incorporas esta sabedoria na tua vida tens mais condições para ser feliz.
Pedro Mexia, Lei Seca
Verdade. A partir do momento em que incorporas esta sabedoria na tua vida tens mais condições para ser feliz.
Tahrir
Vale muito a pena este livro: Tahrir - Os Dias da Revolução, relato no local escrito pela Alexandra Lucas Coelho. Vivi aqueles dias, com o simplismo de quem vê de fora e sabe quase nada sobre o Egipto, emocionado com o que se passava. Os posts e fotos que a Alexandra ia colocando no facebook contribuíram muito para isso, porque mostravam a verdadeira força daquela revolução: estava a ser feita por pessoas comuns, plenas de coragem, sem uma agenda reivindicativa que não passasse em exclusivo por reclamar o direito à dignidade, outra forma de dizer liberdade.
Incerteza
"One can see how difficult it is to get policy right when the forces are so strong and conflicting. The risk of a policy error must surely be higher under these circumstances. On Thursday of last week we discussed how from our recent client meetings the deflationists were starting to be heard more than in recent months. Overall there are still more worried about inflation but the fact that one can build a rational argument for both outcomes shows the delicate nature of this particular cycle."
Lido hoje numa nota de mercados sobre inflação, mas com aplicações mais vastas. É pena que assumir a incerteza tenha custos políticos tão elevados.
Lido hoje numa nota de mercados sobre inflação, mas com aplicações mais vastas. É pena que assumir a incerteza tenha custos políticos tão elevados.
10 May 2011
5 de Junho
Sócrates, Sócrates, Sócrates. Aparentemente a nossa democracia evoluiu para um sistema em que existe apenas uma pessoa. Que é responsável por tudo. Ao ponto de existir quem sugira que todos os problemas do país se resolveriam com o seu afastamento. Ou ao ponto de termos partidos políticos que se recusam a dialogar com o PS, caso este não escolha outro líder (a falta de cultura democrática assim demonstrada já fez correr muita, e boa, tinta).
As eleições têm a ver com responsabilização política. Quem deteve um determinado cargo deve ser responsabilizado nas urnas pelas opções que tomou e pelo fracasso ou sucesso dessas opções. Mas há mais, claro que há mais. Convém que exista uma visão para o que aí vem. Numa altura em que as escolhas políticas estarão necessariamente condicionadas ao Memorando de Entendimento assinado com a CE/FMI/BCE, parece ser quase indiferente quem estará no governo nos próximos anos. Nada mais errado. A intervenção externa cria condições para que parte significativa do Estado Social que temos actualmente seja desmantelado. Há tempos escrevi aqui que reformar o Estado Social - garantindo que seja mais eficiente e mais focado no que é fundamental - era o melhor que podíamos fazer para garantir que este não acabaria.
O acesso universal a educação e saúde de qualidade e mecanismos de protecção que respondam, na medida do possível, a situações de miséria, são parte integrante do país em que quero viver.
O cumprimento das metas traçadas no Memorando de Entendimento, essenciais para sanear as nossas finanças públicas é, assim, tão importante como o país que queremos ser depois de efectuadas as reformas nele contidas. Pelo menos nesse aspecto, o voto de 5 de Junho é tudo menos indiferente.
As eleições têm a ver com responsabilização política. Quem deteve um determinado cargo deve ser responsabilizado nas urnas pelas opções que tomou e pelo fracasso ou sucesso dessas opções. Mas há mais, claro que há mais. Convém que exista uma visão para o que aí vem. Numa altura em que as escolhas políticas estarão necessariamente condicionadas ao Memorando de Entendimento assinado com a CE/FMI/BCE, parece ser quase indiferente quem estará no governo nos próximos anos. Nada mais errado. A intervenção externa cria condições para que parte significativa do Estado Social que temos actualmente seja desmantelado. Há tempos escrevi aqui que reformar o Estado Social - garantindo que seja mais eficiente e mais focado no que é fundamental - era o melhor que podíamos fazer para garantir que este não acabaria.
O acesso universal a educação e saúde de qualidade e mecanismos de protecção que respondam, na medida do possível, a situações de miséria, são parte integrante do país em que quero viver.
O cumprimento das metas traçadas no Memorando de Entendimento, essenciais para sanear as nossas finanças públicas é, assim, tão importante como o país que queremos ser depois de efectuadas as reformas nele contidas. Pelo menos nesse aspecto, o voto de 5 de Junho é tudo menos indiferente.
26 Apr 2011
Este post é de 2004 - mas é isto, que querem?
Espaço de sonho
No dia 25 de Abril de 1974 eu ainda não tinha nascido. O meu Abril, aquele que me formou, foi criado pelos meus pais, pelos valores que me transmitiram, pela festa que faziam sempre que se comemorava o Dia da
Liberdade.
Lembro, com demasiada saudade, os ramos de cravos vermelhos com que a minha mãe enchia a casa, estivéssemos ou não, em Abril. Lembro quando me mostraram a voz quente do Fernando Tordo a cantar a poesia de José Carlos Ary dos Santos: “O povo não é livre em águas mornas / Não se abre a Liberdade com gazuas”. Lembro-me de ouvir, com eles, vezes sem conta, Zeca Afonso, exemplo máximo dos trovadores de Abril. Talvez por isso, ainda hoje me sinta um “Filho da Madrugada”.
O 25 de Abril é, para mim, um espaço emocional, porque não o vivi. Um espaço de sonho, de inocência, de acreditar que tudo é possível. O primeiro momento, o momento fundador, de todos os ideais em que acredito. Liberdade. Democracia. Solidariedade. Paz.
Neste dia, 25 de Abril de 2004, quero dizer obrigado e prestar homenagem aos militares que souberam dizer basta. E aos meus pais por terem criado, para mim que só nasci depois, esse espaço de sonho.
No dia 25 de Abril de 1974 eu ainda não tinha nascido. O meu Abril, aquele que me formou, foi criado pelos meus pais, pelos valores que me transmitiram, pela festa que faziam sempre que se comemorava o Dia da
Liberdade.
Lembro, com demasiada saudade, os ramos de cravos vermelhos com que a minha mãe enchia a casa, estivéssemos ou não, em Abril. Lembro quando me mostraram a voz quente do Fernando Tordo a cantar a poesia de José Carlos Ary dos Santos: “O povo não é livre em águas mornas / Não se abre a Liberdade com gazuas”. Lembro-me de ouvir, com eles, vezes sem conta, Zeca Afonso, exemplo máximo dos trovadores de Abril. Talvez por isso, ainda hoje me sinta um “Filho da Madrugada”.
O 25 de Abril é, para mim, um espaço emocional, porque não o vivi. Um espaço de sonho, de inocência, de acreditar que tudo é possível. O primeiro momento, o momento fundador, de todos os ideais em que acredito. Liberdade. Democracia. Solidariedade. Paz.
Neste dia, 25 de Abril de 2004, quero dizer obrigado e prestar homenagem aos militares que souberam dizer basta. E aos meus pais por terem criado, para mim que só nasci depois, esse espaço de sonho.
15 Apr 2011
Poderosos, estúpidos e essenciais
Os mercados são em simultâneo poderosos, estúpidos e essenciais. Poderosos porque têm o poder de fazer com que aconteça uma coisa em que acreditam num determinado momento (as tais self-fulfilling prophecy). Estúpidos porque muitas vezes ligeiros e limitados na informação que buscam sobre uma determinada situação. Essenciais porque são uma ferramenta insubstituível no aumento da prosperidade das sociedades.
Isto é uma combinação perigosa, como temos vindo a descobrir. E não vejo uma solução para este problema que não implique mais pobreza e menos crescimento.
Isto é uma combinação perigosa, como temos vindo a descobrir. E não vejo uma solução para este problema que não implique mais pobreza e menos crescimento.
13 Apr 2011
Ler
O belo exemplo de Portugal aplicado à discussão orçamental nos EUA., no blog Americam Politics, da The Economist.
LAST month Portugal's parliament voted against a package of austerity measures that would have been necessary to avoid a European Union bail-out. Immediately, the country's costs of borrowing went through the roof. Last Wednesday, Portugal auctioned €1 billion of 12-month bonds at a yield of 5.902%; at the previous auction of €1 billion on March 16th, the yield was 4.331%. Now Portugal will end up having to adopt basically the same package of austerity measures, or something worse, as a condition to receive the European Union bail-out. So their parliament's rejection of the austerity measures cost Portuguese taxpayers €15.71m on that bond issue alone, in return for which they got exactly nothing.
LAST month Portugal's parliament voted against a package of austerity measures that would have been necessary to avoid a European Union bail-out. Immediately, the country's costs of borrowing went through the roof. Last Wednesday, Portugal auctioned €1 billion of 12-month bonds at a yield of 5.902%; at the previous auction of €1 billion on March 16th, the yield was 4.331%. Now Portugal will end up having to adopt basically the same package of austerity measures, or something worse, as a condition to receive the European Union bail-out. So their parliament's rejection of the austerity measures cost Portuguese taxpayers €15.71m on that bond issue alone, in return for which they got exactly nothing.
Elogio do confronto
Tendemos a ver a política de uma forma simplista, reagindo mal ao confronto que esta necessariamente gera. Os apelos ao consenso - perante uma situação que é muito difícil - são bem recebidos porque esquecem que a democracia se faz de combate. Idealmente esse combate pelo voto dos cidadãos seria feito a um nível de ideias - como vamos sair desta situação, que prioridades temos para alocar recursos escassos, que tipo de sociedade queremos ser - mas, como sabemos, esse mundo não existe.
Renegar a democracia porque o combate político é demasiadas vezes feito de ataques pessoais e manipulações da verdade, equivale a deitar fora o bebé com a água do banho. Este é mesmo "o pior de todos os sistemas, com excepção de todos os outros". A teoria dos jogos explica bem porque é que uma solução que não optimiza a utilidade de todos os envolvidos é muitas vezes a escolha racional. É que jogar com regras diferentes dos adversários é o caminho mais certo para a derrota.
Renegar a democracia porque o combate político é demasiadas vezes feito de ataques pessoais e manipulações da verdade, equivale a deitar fora o bebé com a água do banho. Este é mesmo "o pior de todos os sistemas, com excepção de todos os outros". A teoria dos jogos explica bem porque é que uma solução que não optimiza a utilidade de todos os envolvidos é muitas vezes a escolha racional. É que jogar com regras diferentes dos adversários é o caminho mais certo para a derrota.
11 Apr 2011
Nice going, Portugal
O problema das contas públicas dos países da periferia tem anos e não era uma questão até meados do ano passado. Claro que é sempre desejável (agora obrigatório) que a responsabilidade fiscal faça parte das opções políticas que temos de fazer. E que há muito a fazer em termos de consolidação das nossas contas públicas. Mas, lamento dizer, até porque se fosse verdade era mais fácil de resolver, o nosso problema vai um bocado mais longe do que os tão famosos consumos intermédios.
Uma das principais razões da nossa capitulação tem a ver com a alteração sentida na UE relativamente a uma solidariedade que os mercados presumiam como inatacável. Isto é facilmente demonstrável pelo facto de os spreads das diferentes dívidas públicas da Zona Euro terem sido quase idênticos, apesar de situações bem diferentes nos diversos países, até ao início da crise financeira global. O papel fundamental da UE nesta evolução é, aliás, reforçado pela correlação elevada que os spreads dos países periféricos demonstraram no último ano, muito mais sensíveis aos comentários de Berlim e de Paris do que à evolução dos países afectados.
Depois foi só juntar irresponsabilidade no pior momento possível. Reprovar um novo pacote de medidas de austeridade (que tinha um consenso total junto de quem podia evitar que tivéssemos de recorrer a um pedido de ajuda) numa altura em que Espanha começou a descolar da restante periferia em termos de risco de crédito, é de uma estupidez alarmante. Enquanto Espanha tinha também uma percepção de risco elevada, o risco de deixar cair Portugal era demasiado alto, dado o mais que provável efeito de contágio. Desaparecendo essa muleta e juntando a óbvia percepção, pelo menos para o exterior, de que alguns em Portugal preferiram provocar uma crise política em vez de se continuar um trabalho exigente e difícil de controlo das contas públicas, a ajuda externa confirmou-se definitivamente como uma inevitabilidade. Resta-nos negociar um pacote de ajuda no meio dos excessos inevitáveis de uma campanha eleitoral e com interlocutores nacionais sem legitimidade. Nice going, Portugal.
Uma das principais razões da nossa capitulação tem a ver com a alteração sentida na UE relativamente a uma solidariedade que os mercados presumiam como inatacável. Isto é facilmente demonstrável pelo facto de os spreads das diferentes dívidas públicas da Zona Euro terem sido quase idênticos, apesar de situações bem diferentes nos diversos países, até ao início da crise financeira global. O papel fundamental da UE nesta evolução é, aliás, reforçado pela correlação elevada que os spreads dos países periféricos demonstraram no último ano, muito mais sensíveis aos comentários de Berlim e de Paris do que à evolução dos países afectados.
Depois foi só juntar irresponsabilidade no pior momento possível. Reprovar um novo pacote de medidas de austeridade (que tinha um consenso total junto de quem podia evitar que tivéssemos de recorrer a um pedido de ajuda) numa altura em que Espanha começou a descolar da restante periferia em termos de risco de crédito, é de uma estupidez alarmante. Enquanto Espanha tinha também uma percepção de risco elevada, o risco de deixar cair Portugal era demasiado alto, dado o mais que provável efeito de contágio. Desaparecendo essa muleta e juntando a óbvia percepção, pelo menos para o exterior, de que alguns em Portugal preferiram provocar uma crise política em vez de se continuar um trabalho exigente e difícil de controlo das contas públicas, a ajuda externa confirmou-se definitivamente como uma inevitabilidade. Resta-nos negociar um pacote de ajuda no meio dos excessos inevitáveis de uma campanha eleitoral e com interlocutores nacionais sem legitimidade. Nice going, Portugal.
8 Apr 2011
Despedir
Quando os "técnicos" do BCE, UE, FMI, whatever, chegarem a Portugal são capazes de ter uma surpresa desagradável. Excluindo uma saída do Estado de sectores vitais como a saúde e educação (que estão fora de discussão, como para mim é óbvio), o atingir de uma redução significativa da despesa do Estado só se fará através de despedimentos na função pública, cortando gorduras acumuladas ao longo de décadas. O mito dos consumos intermédios desfaz-se rapidamente quando consideramos o seu reduzido peso na despesa pública total.
O preço a pagar será, claro, um aumento significativo da taxa de desemprego - nos próximos anos parece difícil que o sector privado tenha grande capacidade de contratar. Como é que isto se faz em democracia, é uma coisa que ainda ninguém me conseguiu explicar convenientemente.
O preço a pagar será, claro, um aumento significativo da taxa de desemprego - nos próximos anos parece difícil que o sector privado tenha grande capacidade de contratar. Como é que isto se faz em democracia, é uma coisa que ainda ninguém me conseguiu explicar convenientemente.
7 Apr 2011
Ah, a nostalgia
Ora então, vivo mais uma vez num país intervencionado. Bom, bom, era poder passar por mais esta ajuda externa no mesmo estado de espírito em que estava nas últimas duas: em busca permanente de qual seria a próxima brincadeira.
6 Apr 2011
Agir localmente
Há, perto da escola da minha filha, um parque infantil que tem uma área vedada para jogos. Fizeram obras recentemente, nada de especial, pintaram umas marcas de basket no chão e puseram umas tabelas. Desde então, não há vez que passe por lá e não estejam um bando de putos (e mesmo alguns menos putos) a jogar, o que não acontecia porque o espaço estava muito degradado. Simples, provavelmente barato e eficaz. É bom ver estas coisas, no meio da desgraça em que estamos metidos.
1 Apr 2011
Mentira e verdade
A acusação de mentir como arma principal de ataque a adversários políticos não é apenas uma menorização da política - porque acaba com qualquer hipótese de debate de ideias sobre para onde queremos ir e qual o caminho que devemos percorrer. É também perigosa, porque dá força aos argumentos populistas (é tudo a mesma cambada, pá!) e estúpida, dado que não é difícil, em especial em longos períodos de governação (às vezes em curtos), apanhar contradições no discurso de qualquer político, que possam ser classificadas como mentira.
A insistência em conceitos de concretização mais do que duvidosa, como a "verdade" que aparentemente se deseja única e incontestada, como se tal fosse possível, é apenas a outra face da mesma estratégia.
A insistência em conceitos de concretização mais do que duvidosa, como a "verdade" que aparentemente se deseja única e incontestada, como se tal fosse possível, é apenas a outra face da mesma estratégia.
Mais uns sem-noção
E continuamos assim, divertidos. Mais surreal que provocar uma crise política nesta conjuntura, é achar que um governo de gestão (obviamente enfraquecido) deve negociar um pacote de ajuda internacional... Com que contrapartidas? As do PEC4, cuja rejeição na AR levou à queda do governo?
31 Mar 2011
Rir é o melhor remédio
Uma coisa não podemos negar: somos um país divertido. A caminho da tragédia, mas sempre nos vamos rindo pelo caminho. De que outra forma podemos explicar estas últimas duas semanas na vida política nacional?
Equilíbrio
A resposta europeia à crise da dívida soberana tem, essencialmente, um problema: não é uma resposta. Para além dos avanços e recuos que têm existido, deixando os países mais frágeis a cozer em lume brando, olha apenas para o denominador do rácio dívida/pib. Os proponentes de medidas austeridade cada vez mais severas fingem ignorar os efeitos destas sobre a economia, podendo facilmente ser criado um ciclo vicioso em que, ficando todos mais pobres, continuamos exactamente com o mesmo nível de endividamento.
Claro que são precisas medidas de austeridade. Claro que há gastos públicos que não se justificam e são essencialmente desperdício. Mas moralismos e comparações simplistas à parte (a tal ideia de que o Estado deve ser gerido como se fossem as finanças de uma casa), um plano de redução de dívida tem de ser equilibrado o suficiente para evitar anos e anos de uma contraproducente depressão económica.
Existe ainda o risco de demasiada austeridade ser recusada pela maioria de nós, naquela coisa incomodativa que se chama eleições. Acho que nos esquecemos disto mais vezes do que devíamos.
Claro que são precisas medidas de austeridade. Claro que há gastos públicos que não se justificam e são essencialmente desperdício. Mas moralismos e comparações simplistas à parte (a tal ideia de que o Estado deve ser gerido como se fossem as finanças de uma casa), um plano de redução de dívida tem de ser equilibrado o suficiente para evitar anos e anos de uma contraproducente depressão económica.
Existe ainda o risco de demasiada austeridade ser recusada pela maioria de nós, naquela coisa incomodativa que se chama eleições. Acho que nos esquecemos disto mais vezes do que devíamos.
30 Mar 2011
Escolhas
Isto não vai ser bonito, já todos percebemos. A discussão sobre a culpa da situação actual das finanças públicas é interessante, mas inútil dado o clima de campanha eleitoral, em que estamos a viver já há algum tempo.
O pedido de ajuda externa, que era evitável se estivéssemos todos focados nos objectivos que precisamos de cumprir, é agora mais do que certo. Apenas resta a dúvida de quem o vai fazer, o governo de gestão nos próximos dois meses ou o que sair das eleições que aí vêm.
O principal problema prende-se com a perda de margem de manobra para fazermos escolhas políticas que são importantes. Os técnicos que nos vão governar nos próximos tempos, fruto das contrapartidas que teremos de oferecer para receber financiamento, não são muito imaginativos: a receita que nos será aplicada será a mesma de sempre. Vamos cortar onde devíamos e onde não devíamos, retirando protecção às camadas mais frágeis da nossa população. É que, por mais difícil que seja de entender, a parte de leão da despesa pública são transferências de rendimento para pessoas - nas quais se incluem pensionistas, desempregados e uma franja de pessoas abaixo de um limiar de pobreza que, como sociedade, não devíamos tolerar.
"O que tem de ser, tem muita força", costumava dizer a minha mãe. Verdade, mas não precisava de ser à maneira do FMI.
O pedido de ajuda externa, que era evitável se estivéssemos todos focados nos objectivos que precisamos de cumprir, é agora mais do que certo. Apenas resta a dúvida de quem o vai fazer, o governo de gestão nos próximos dois meses ou o que sair das eleições que aí vêm.
O principal problema prende-se com a perda de margem de manobra para fazermos escolhas políticas que são importantes. Os técnicos que nos vão governar nos próximos tempos, fruto das contrapartidas que teremos de oferecer para receber financiamento, não são muito imaginativos: a receita que nos será aplicada será a mesma de sempre. Vamos cortar onde devíamos e onde não devíamos, retirando protecção às camadas mais frágeis da nossa população. É que, por mais difícil que seja de entender, a parte de leão da despesa pública são transferências de rendimento para pessoas - nas quais se incluem pensionistas, desempregados e uma franja de pessoas abaixo de um limiar de pobreza que, como sociedade, não devíamos tolerar.
"O que tem de ser, tem muita força", costumava dizer a minha mãe. Verdade, mas não precisava de ser à maneira do FMI.
29 Mar 2011
22 Mar 2011
União (nacional)
Arrepio-me com os apelos ao consenso, à criação de um governo com vários partidos e assim. Democracia é escolha, convém que ela exista.
21 Mar 2011
Sorry, wrong number
Não me comovem os apelos à responsabilidade, até porque acredito que quem insiste em caminhos perigosos numa fase destas se arrisca a pagar um preço bem alto em futuras eleições. Mas não é pelo facto de agora ser o "meu" lado da barricada a clamar "depois de mim, o dilúvio" que esse tipo de conversa merece mais respeito da minha parte.
Spóquem (4)
Bruno de Carvalho é a escolha óbvia para os meus preciosos 4 votos. Se correr bem, óptimo. Se for tudo uma vigarice o clube acaba em 2 anos, deixando assim de ser uma preocupação.
Vamos a votos?
Continuo à espera das propostas do PSD sobre como cumprir as metas orçamentais estipuladas. É que, das duas uma: ou o PSD ainda não tinha percebido que serão necessárias mais medidas, o que não abona a favor da percepção da realidade na S. Caetano, ou, sabendo, estão a jogar um jogo bem perigoso, dado que qualquer que seja o próximo governo, terá de tomar estas e/ou outras ainda mais gravosas durante os próximos anos.
A luta partidária é o que é e claro que temos de viver com ela. Mas há alturas em que um bocadinho de responsabilidade e de capacidade de não hipotecar a credibilidade futura é capaz de vir a dar jeito. E isto é válido para todos. PS incluído, dado que o grau de inabilidade na negociação e apresentação das novas medidas atingiu também níveis difíceis de compreender.
Atingido este estado de coisas, acho que eleições são mesmo a única solução. Enfrentar uma crise desta dimensão sem uma legitimidade clara ou capacidade de cooperação leal entre todos os envolvidos é, de longe, o pior cenário.
A luta partidária é o que é e claro que temos de viver com ela. Mas há alturas em que um bocadinho de responsabilidade e de capacidade de não hipotecar a credibilidade futura é capaz de vir a dar jeito. E isto é válido para todos. PS incluído, dado que o grau de inabilidade na negociação e apresentação das novas medidas atingiu também níveis difíceis de compreender.
Atingido este estado de coisas, acho que eleições são mesmo a única solução. Enfrentar uma crise desta dimensão sem uma legitimidade clara ou capacidade de cooperação leal entre todos os envolvidos é, de longe, o pior cenário.
7 Mar 2011
E ainda assim, viva o "erro cósmico"
Discussão
- Desconfio que a democracia não resulta. Juntam-se astronautas, bodes,
camponeses, galinhas, matemáticos e virgens loucas e dão-se a todos os
mesmos direitos.
Isso parece-me um erro cósmico. Desculpa.
Desculpei mas fiquei ofendido. Que a democracia era aquilo mesmo, e ainda
com conversa fiada como brinde, isso sabia eu. Que mo viessem dizer,
era outra coisa.
Fiquei ainda mais ofendido, até porque não gosto de erros cósmicos.
Acho um snobismo.
- Eu sou democrático - rugi entre dentes, como resposta. - Tenho amigos no exílio,
todos democráticos.
Foram para lá por serem democráticos. É um sacrifício que poucos fazem,
ir para o exílio e ser professor universitário exilado e democrático.
Eras capaz de fazer isso ?
- Não sou democrático.
Não havia resposta a dar. nenhuma. Ele não era democrático, não
sabia de democracia.
Eu sim, sou democrático, até já quis ir à América, que me afirmaram que
lá é que é a democracia.
Recusaram-me o visto no passaporte, disseram que eu era comunista!
Viram isto ?
Mário Henrique Leiria
Contos do Gin-Tonic
Vou-me lembrando periodicamente deste texto de Mário Henrique Leiria (autor responsável, aliás, por uma parte relevante da minha formação cívica). As manifestações marcadas para sábado (cujo único tema em comum parece ser a negação da responsabilidade pessoal), o ridículo frémito sentido por aí com a vitória dos "homens da luta" no festival da canção, a incapacidade da oposição em defender ideias concretas sobre como sair da situação actual - sem ser declarações vagas sobre redução de despesa seguidas de votos concretos contra medidas específicas para o fazer -, deixam-me, mais do que perplexo, espantado. Encontrarmos culpados (desde que nunca eu) faz parte da nossa condição. Mas esperava - lirismo, bem sei - que perante um dos momentos mais difíceis das ultimas décadas, fôssemos capazes de alguma coisa um bocadinho melhor que isto. Pelos vistos, não.
- Desconfio que a democracia não resulta. Juntam-se astronautas, bodes,
camponeses, galinhas, matemáticos e virgens loucas e dão-se a todos os
mesmos direitos.
Isso parece-me um erro cósmico. Desculpa.
Desculpei mas fiquei ofendido. Que a democracia era aquilo mesmo, e ainda
com conversa fiada como brinde, isso sabia eu. Que mo viessem dizer,
era outra coisa.
Fiquei ainda mais ofendido, até porque não gosto de erros cósmicos.
Acho um snobismo.
- Eu sou democrático - rugi entre dentes, como resposta. - Tenho amigos no exílio,
todos democráticos.
Foram para lá por serem democráticos. É um sacrifício que poucos fazem,
ir para o exílio e ser professor universitário exilado e democrático.
Eras capaz de fazer isso ?
- Não sou democrático.
Não havia resposta a dar. nenhuma. Ele não era democrático, não
sabia de democracia.
Eu sim, sou democrático, até já quis ir à América, que me afirmaram que
lá é que é a democracia.
Recusaram-me o visto no passaporte, disseram que eu era comunista!
Viram isto ?
Mário Henrique Leiria
Contos do Gin-Tonic
Vou-me lembrando periodicamente deste texto de Mário Henrique Leiria (autor responsável, aliás, por uma parte relevante da minha formação cívica). As manifestações marcadas para sábado (cujo único tema em comum parece ser a negação da responsabilidade pessoal), o ridículo frémito sentido por aí com a vitória dos "homens da luta" no festival da canção, a incapacidade da oposição em defender ideias concretas sobre como sair da situação actual - sem ser declarações vagas sobre redução de despesa seguidas de votos concretos contra medidas específicas para o fazer -, deixam-me, mais do que perplexo, espantado. Encontrarmos culpados (desde que nunca eu) faz parte da nossa condição. Mas esperava - lirismo, bem sei - que perante um dos momentos mais difíceis das ultimas décadas, fôssemos capazes de alguma coisa um bocadinho melhor que isto. Pelos vistos, não.
22 Feb 2011
Deve ser uma cena ideológica, ou assim
Apesar do que significa em termos de idade, confesso que gosto bem mais de pertencer à "geração rasca" do que à "geração à rasca".
Spóquem (3)
Saber que tudo tem ciclos (havemos de conseguir voltar a ganhar aos lampiões, caramba!), não anestesia propriamente a dor de ver o meu clube seguir alegremente de humilhação em humilhação.
21 Feb 2011
Sad, but true
"O Sporting é a nossa puta", cantado pelas claques do Benfica, era o que se ouvia em Alvalade no final do jogo.
19 Feb 2011
Ignorar bons conselhos
Writing is not necessarily something to be ashamed of, but do it in private and wash your hands afterwards.
Robert Heinlein
Robert Heinlein
18 Feb 2011
Pode alguém ser livre, se outro alguém não é?*
Na tarde de sexta-feira passada, enquanto se fazia história no Egipto, estava no trabalho colado à televisão a ver as imagens da Al-jazeera, emocionado com a felicidade única daquela multidão, o momento da libertação em que tudo parece possível.
À minha volta a indiferença era total. Perante várias tentativas de comentar, de partilhar aquele momento, a reacção variava entre os que não faziam ideia do que se passava naquele país e os que, sabendo que se passava alguma coisa, não viam nada de especial no momento.
Tomamos a liberdade como garantida, até a retirarmos por completo das nossas inquietações. Achamos que o que se passa naquele outro mundo - em que até a cor da pele não é a nossa - não nos interessa para nada. Mais cedo ou mais tarde a indiferença vai sair-nos cara.
*da música "Pode alguém ser quem não é?" de Sérgio Godinho
À minha volta a indiferença era total. Perante várias tentativas de comentar, de partilhar aquele momento, a reacção variava entre os que não faziam ideia do que se passava naquele país e os que, sabendo que se passava alguma coisa, não viam nada de especial no momento.
Tomamos a liberdade como garantida, até a retirarmos por completo das nossas inquietações. Achamos que o que se passa naquele outro mundo - em que até a cor da pele não é a nossa - não nos interessa para nada. Mais cedo ou mais tarde a indiferença vai sair-nos cara.
*da música "Pode alguém ser quem não é?" de Sérgio Godinho
Al-va-la-de, já não dá...
17 Feb 2011
O diabo está nos detalhes
A cada medida de redução da despesa pública anunciada (e serão precisas bem mais...), surge logo a oposição a vociferar. Desde a redução de comparticipação a escolas privadas onde existe suficiente oferta pública, ao fim do transporte de doentes não urgentes de forma grátis e indiscriminada, etc., etc..
É giro, isto, de clamar por uma coisa e depois ser contra todas as medidas que podem permitir chegar lá.
É giro, isto, de clamar por uma coisa e depois ser contra todas as medidas que podem permitir chegar lá.
16 Feb 2011
Devia haver uma lei sobre isto
Dias como este (de dilúvio, isto está bem para lá de chuva) são para ser passados em frente a uma lareira, com mantas, livros, amigos e vinho.
Desafios
Hoje enfrentei uma plateia de miúdos dos 3 aos 5 anos na escola da minha filha, para apresentar com ela um projecto que estivemos a fazer em casa sobre as fases da Lua. A partir daqui estou preparado para tudo.
15 Feb 2011
I kid you not!
14 Feb 2011
Chuva no nabal
Faz todo o sentido, em termos tácticos, que o PSD escolha o momento que mais lhe convém em termos eleitorais para apresentar ou aprovar uma moção de censura. Não dá é para alegar que está a ter em conta os superiores interesses do país, enquanto contribui para manter no poder aqueles que qualifica como o maior bando de incompetentes que já passou pela governação portuguesa.
Ondas
Gosto das ondas da comunicação social. Neste próximos 3 dias vamos poder saber com exactidão quantos idosos são encontrados mortos em casa e teorizar imenso sobre o assunto.
12 Feb 2011
Já não se pode contar com nada
É com profunda tristeza que constato a decadência que atingiu os croissant com chocolate da Bénard.
11 Feb 2011
Não é isto verdade?
Hoje na TSF um bem falante responsável da GNR dizia que a corporação tinha feito tudo o que era legalmente exigível no caso da senhora que esteve morta 9 anos no seu apartamento sem ser descoberta. Para logo passar para a culpa da sociedade como um todo e, nesse sentido, também a GNR devia reflectir sobre este caso. Nestas coisas lembro-me sempre de uma das frases do FMI de José Mário Branco: "a culpa é de todos, logo a culpa não é de ninguém. Não é isto verdade?"
10 Feb 2011
Alhos e bugalhos
A notícia sobre uma senhora que foi descoberta sem vida no seu apartamento nove anos depois de ter sido vista pela última vez - perturbadora por tornar palpável a solidão das grandes cidades, mais visível ainda nos velhos - serviu para muitos exorcizarem os fantasmas da actualidade, através de generalizações que me parecem obscenas. Nada sei sobre a senhora, nem sobre o que levou a que uma situação horrenda como esta fosse possível. Daí até utilizar o caso para chegar à conclusão que o Estado é uma entidade pérfida e, vejam lá, até foi o fisco através de uma penhora que descobriu a situação (tipo só vêm bater à porta para cobrar) já me parece excesso de necessidade de exorcismo de algumas cabeças.
9 Feb 2011
De cada um
Tenho andado às voltas com isto da responsabilidade de ser feliz. Com as concessões que vamos fazendo, às vezes porque é mais fácil, outras porque é mais cómodo ou nos falta a coragem de enfrentarmos o desconhecido, de sair da zona de conforto. Mas não dá para delegar ser feliz. Nem para culpar outros, ou a vida - essa entidade difusa. Esta responsabilidade é mesmo de cada um - pessoal e intransmissível.
Catolitech
Parece que a igreja aprovou uma app do iPhone para servir de confessionário. Parece-me bem, adicionar estilo aos pedidos de absolvição. Fará upload e tudo? E, se sim, para onde?
8 Feb 2011
Chicken
Miguel Relvas realçou que o Governo tem tido ao seu dispor “todos os instrumentos” de que precisa mas, “seja por incúria seja por incompetência”, tem mostrado uma “total ausência de vontade e de capacidade para tomar as medidas de que o país “urgentemente precisa”.
O tom está num nível que exige uma moção de censura, não é? Mas, dado que é o PSD de Passos Coelho, tudo é possível. Mesmo fazer afirmações destas depois de um Conselho Nacional e assobiar para o lado como se não pudessem fazer nada sobre o assunto.
O tom está num nível que exige uma moção de censura, não é? Mas, dado que é o PSD de Passos Coelho, tudo é possível. Mesmo fazer afirmações destas depois de um Conselho Nacional e assobiar para o lado como se não pudessem fazer nada sobre o assunto.
Agenda reivindicativa
Estávamos muito bem a jantar, quando de repente a M. dispara: "quero uma mana, um mano ou um animal de estimação!" Perante o nosso espanto, decidiu reforçar: "um bebé ou um animal de estimação, tens de escolher mãe!"
Efeitos colaterais
Os publicitários estavam em depressão antes de o governo ter decidido aumentar o IVA, não? Desde o início do ano não se ouve falar de mais nada na publicidade.
7 Feb 2011
Spóquem! (2)
A linda choradeira vivida em Alvalade na sexta-feira, com o pretexto da saída do Liedson, foi um daqueles sinais de perspicácia do subconsciente que, por vezes, atingem uma multidão (pequena, nestes tempos, mas ainda assim uns milhares de pessoas). Quanto mais depressa fizermos o luto de um Sporting que já só existe na imaginação e memória dos sócios e adeptos, menos duro vai ser cair na real.
Das notícias da manhã
Animado com o Sol, que continua a dar um ar da sua graça. Bem necessário é, perante as notícias da manhã, os números mais o que eles significam. Acho que ouvi que 15.000 idosos vivem sozinhos em Lisboa - em que condições? Um incêndio nas Caldas da Rainha, três mortos, de 10 pessoas que viviam em quartos numas águas-furtadas. Marcelo a declarar o governo morto, de professor a médico-legista da democracia, deve fazer sentido, tudo deve fazer sentido naquela cabeça, supomos. A capa do Público, com os nomes das 43 mulheres assassinadas no ano passado em casos de violência doméstica, vergonha, vergonha, vergonha, mil vezes vergonha por deixarmos que isto se continue a passar aqui, em 2011, ao nosso lado. Não há Sol que nos valha para tudo isto, caramba.
6 Feb 2011
Leituras
"(...) Castigar um adversário político, pô-lo na prisão ou enviá-lo para o Lager é cruel mas racional, sempre se fez; antigamente vendiam-se os prisioneiros como escravos. É uma realidade de sempre, condenável, mas de sempre, encontramo-la mesmo no mundo animal: as formigas fazem razias e escravizam. Mas punir o outro porque ele é outro, na base de uma ideologia abstracta, parecia-me ser o cúmulo da injustiça, da estupidez e da irracionalidade.
Porquê, em que sou eu diferente dos outros? Há aqui uma distinção importante a fazer: os judeus religiosos, os judeus crentes, como todos os crentes, não compreendiam, não sentiam esta injustiça, viam nela um castigo divino, imputavam-na ao Deus imcompreensível, ao Deus desconhecido, que tem poder de vida ou de morte, que segue apenas critérios inacessíveis ao nosso entendimento, porque tudo o que Deus decide tem de ser aceite. Mas, para um laico como eu era e continuo a ser, era a maior iniquidade possível, que nada podia justificar ou explicar."
Primo Levi, O dever de memória, Livros Cotovia, pág. 36
Porquê, em que sou eu diferente dos outros? Há aqui uma distinção importante a fazer: os judeus religiosos, os judeus crentes, como todos os crentes, não compreendiam, não sentiam esta injustiça, viam nela um castigo divino, imputavam-na ao Deus imcompreensível, ao Deus desconhecido, que tem poder de vida ou de morte, que segue apenas critérios inacessíveis ao nosso entendimento, porque tudo o que Deus decide tem de ser aceite. Mas, para um laico como eu era e continuo a ser, era a maior iniquidade possível, que nada podia justificar ou explicar."
Primo Levi, O dever de memória, Livros Cotovia, pág. 36
4 Feb 2011
Spóquem!
Neste momento a Naval ganha 3-2 em Alvalade. Faltam 20 minutos para acabar o jogo. E, aparentemente, quem se vai embora é o Liedson.
Liberdade
Percebo pouco do que se passa no Egipto, claro. Na simplificação que naturalmente faço, pasmo e comovo-me com a espontaneidade de milhões pessoas que exigem a liberdade de escolherem o seu próprio destino, assim, sem mais pontos que ofusquem o fundamental: serem livres, mais livres.
3 Feb 2011
Saudade
É difícil perceber que morreste há mais de 10 anos. Que há 1 década que não ouço a tua voz rouca, que não sinto a tua mão a acariciar-me a cara, como fazias tantas vezes. Já escrevi aqui, faz tempo também, que às vezes tenho a sensação de este ser um sítio onde falo contigo, mãe. Onde vou contando o que se vai passando, como uma prova de vida, da tal vida que continua, como me disseste uns anos antes de morreres, quando foi a vez do pai.
Vou olhando para o espelho e vendo que estou cada vez mais parecido contigo. As mesmas linhas a começarem a desenhar-se na cara, a mesma vontade de continuar, de ser feliz, de "o que tem de ser tem muita força" e "não te preocupes com o que não controlas", como me dizias tantas vezes.
O mais difícil, claro, é ver a M. crescer sem te conhecer, sem te ter na vida dela. Com a noção de que vocês iam ser companheiras, as duas determinadas e com poucos medos, prontas para se divertirem e aprenderem uma com a outra. É pena que não possas ver os teus filhos e netos felizes, pena que o orgulho que sentirias - com todos, mas mesmo todos nós - seja algo apenas projectado por mim, mas que sei real num mundo que fosse um pouco menos cabrão em algumas coisas.
Era isto que te estava para dizer há já uns tempos, mãe. O facto de não o poderes ler não é para aqui chamado, pois não?
Vou olhando para o espelho e vendo que estou cada vez mais parecido contigo. As mesmas linhas a começarem a desenhar-se na cara, a mesma vontade de continuar, de ser feliz, de "o que tem de ser tem muita força" e "não te preocupes com o que não controlas", como me dizias tantas vezes.
O mais difícil, claro, é ver a M. crescer sem te conhecer, sem te ter na vida dela. Com a noção de que vocês iam ser companheiras, as duas determinadas e com poucos medos, prontas para se divertirem e aprenderem uma com a outra. É pena que não possas ver os teus filhos e netos felizes, pena que o orgulho que sentirias - com todos, mas mesmo todos nós - seja algo apenas projectado por mim, mas que sei real num mundo que fosse um pouco menos cabrão em algumas coisas.
Era isto que te estava para dizer há já uns tempos, mãe. O facto de não o poderes ler não é para aqui chamado, pois não?
Não há limites para o contorcionismo
Parece que, finalmente, descobriram ao Estado uma função importantíssima: financiar escolas privadas (isto é, os donos dessas escolas), mesmo que estejam em duplicação com escolas públicas que já existam.
2 Feb 2011
Dou por mim a pensar...
Nestas reuniões com os bancos todos será que Cavaco está à procura de mais um investimento tão rentável como o do BPN?
Intemporal
"In case you're worried about what's going to become of the younger generation, it's going to grow up and start worrying about the younger generation."
Roger Allen
Roger Allen
Efeitos da crise
A crise ajuda a esbater fronteiras. O típico discurso de ataque ao Estado social tem sido uma bela mistura dos defensores da meritocracia ("as pessoas são pobres porque não se esforçam") com os taxistas ("essa malta não quer é trabalhar").
1 Feb 2011
7 Oct 2010
Para teimoso, teimoso e meio
Ao fim de mês e meio a correr o meu joelho direito decidiu começar a manifestar-se. Nas palavras, sempre sábias, do meu avô: "se eu não faço o que quero, porque é que o meu joelho há-de fazer?".
28 Sept 2010
Não se arranja um para cá?
Parece-me que Portugal está mesmo, mesmo a precisar de um Rally to Restore Sanity.
24 Sept 2010
E que tal a Igreja começar a pagar impostos?
Essa é que era uma bela ideia. Bem mais eficaz do que afirmações como esta: igreja quer poder político a dar o exemplo quando pede sacrifícios.
23 Sept 2010
Vício
Sabes que correr se está a tornar um vício quando, por o teu iphone ter morrido, usas o ipod da tua filha e corres 4km ao som dos Morangos com Açúcar.
10 Sept 2010
2 Sept 2010
28 Aug 2010
26 Aug 2010
O preço a pagar
Depois de duas semanas no Algarve com a água do mar a 24 graus, hoje de manhã o esquentador presenteou-me com um banho de água fria. É justo.
21 Aug 2010
19 Aug 2010
16 Aug 2010
14 Aug 2010
11 Aug 2010
25 Jul 2010
24 Jul 2010
23 Jul 2010
Gostava de ver isto para Portugal
Este gráfico reflecte a situação fiscal norte-americana. É o tipo de informação que podia acrescentar um bocadinho de racionalidade à discussão sobre o que é preciso fazer para resolver o problema das contas públicas portuguesas.
22 Jul 2010
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