14 Sept 2011

Os sem-noção

Se alguma coisa puder ser explicada por estupidez, não procures outra explicação. Esta frase, que ouvi há muitos anos, tem uma actualidade particular quando se olha para os vários governos da Europa, a tentarem lidar com uma crise que, para ser sincero, nos ultrapassa a todos.

Mas, no fundo, a explicação da crise europeia é simples. Chama-se falta de confiança. Mesmo na ausência dos mecanismos necessários para enfrentar uma crise numa união monetária, creio que bastaria que os mercados (os investidores) acreditassem que os diversos membros da Zona Euro estariam inequivocamente na disposição de fazer o que fosse necessário para ajudar qualquer país membro que enfrentasse dificuldades conjunturais (como Portugal), ou mesmo estruturais (como a Grécia).

O que se passou, e continua a passar, foi exactamente o contrário. Se alguém se der ao trabalho de recolher as diversas declarações dos n responsáveis políticos desde o início da crise de dívida soberana, o que vai encontrar são acima de tudo recriminações e hesitações, numa confrangedora falta de capacidade de entender o ideal de construção europeia e escapar à mera gestão dos respectivos calendários eleitorais. E, já agora, de conceber e explicar os custos incalculáveis do fim da moeda única. 

Aparentemente sem noção dos riscos que estão presentes e de como se torna cada vez mais difícil recuperar uma confiança que se andou a destruir no último ano e meio, a atitude da Europa tem sido, como dizer... Isso, estúpida. 

Para a Mê

Há cinco anos atrás ainda não te conhecia, Mê. Daqui a umas horas, quando amanhã já tiver começado, faz então cinco anos que nasceste. De olhos pretos, enormes, abertos para o mundo.

Que a vida te seja leve, filha, escrevi aqui nesse dia. Hoje quero acrescentar: que te saibas manter assim, como és. Feliz, curiosa, determinada, justa, preocupada com os outros, sem medo de fazer perguntas. Amo-te.

13 Sept 2011

Sonsos ou pior

Começam a surgir as expectáveis declarações, por parte de membros do governo, da dimensão da crise internacional e do impacto negativo que esta pode ter no esforço de consolidação das contas públicas portuguesas.

Toda a campanha do psd (e cds) para as legislativas foi construída com base numa única narrativa. Os problemas de Portugal eram da exclusiva responsabilidade de Sócrates e (ainda assim, em menor escala, dada a dimensão do ódio personalizado) do ps.

Qualquer pessoa minimamente informada e que não estivesse cega por fanatismo sabia que não é assim. Claro que existe responsabilidade do governo anterior em não ter sido capaz de fazer um maior controlo sobre as contas públicas. Mas a dinâmica iniciada com a crise financeira global de 2008, criando uma recessão profunda que só não se transformou num episódio de depressão económica através da substituição do investimento e consumo privado (que desapareceu) por um aumento dos gastos públicos, reclamaria sempre vítimas. É natural que essas vítimas fossem os estados mais frágeis (porque mais endividados ou com uma estrutura de gastos públicos mais rígida), como a Grécia ou Portugal.

Deitar abaixo um governo e ganhar eleições é mais fácil do que governar um país. A situação actual torna ainda mais fáceis as duas primeiras e mais difícil a última. Quando chega a altura de lidar com a realidade, é necessário mudar o discurso e admitir finalmente que consolidarmos as contas públicas é condição necessária, mas está longe de ser condição suficiente para não entrarmos em incumprimento. Acabou, assim, o tempo da sonsice e de toda a desonestidade intelectual que esta acarretou.

Claro que há uma hipótese alternativa. A de estarmos a ser governados por pessoas que só agora entenderam uma conjuntura internacional que era óbvia. Para bem de todos nós, é melhor pensarmos que são mais sonsos que estúpidos.

Quanto ao mundo, não sei

Relvas dizia hoje, na TSF, que o mundo olha para Portugal de maneira diferente desde há 2 meses. Quanto ao mundo, não sei, mas eu olho, sim. Com a tristeza profunda de saber que, corra bem ou mal, seremos um país pior nos próximos anos.

Da complacência

A Europa - o projecto de construção de uma união europeia - faz parte das nossas vidas. Mesmo os nascidos na década de 60, passaram já a maior parte da sua vida inseridos neste projecto. Ainda mais para as populações dos países fundadores da (então) CEE.

Sabemos que a habituação gera complacência. Os perus, alimentados todos os dias até chegar o Natal, ficam certamente surpreendidos no dia em que a mesma mão que lhes trazia a comida se apresenta agora com uma faca. A complacência gera riscos, quando o facto de não conseguirmos imaginar que podia ser de outra maneira, nos faz deixar de dar valor ao que temos actualmente. Quando apenas vemos os custos que determinada situação traz, sem olharmos sequer uma vez para todos os benefícios - os tais que damos por adquiridos.

Parece-me impossível, num debate racional, defender que uma dissolução da zona euro, e o enorme passo atrás que significaria para a integração europeia, seja a melhor solução. Já escrevi aqui que a "solução" encontrada na cimeira europeia de final de Julho poderia, na melhor das hipóteses, comprar tempo à União Europeia para iniciar as reformas, no seu desenho institucional, que nos protegessem a todos desta e de futuras crises económicas e financeiras. A melhor das hipóteses, como seria de esperar, não se concretizou. Nem uma discussão profunda do que é preciso mudar foi iniciada, nem os mercados financeiros - também assustados por uma forte desaceleração sentida no crescimento económico global - têm tempo para nos dar.

Quando chegar o momento em que não é possível adiar mais os problemas, teremos de fazer uma escolha, se calhar das mais importantes em que participaremos na nossa vida. Queremos estar juntos, mais fortes, mais prósperos, em paz. Ou não.

Esse momento, que parece estar cada dia mais próximo, vai exigir líderes fortes. Ou, se calhar, apenas pessoas que entendem o quanto todos temos a perder quando deixamos os nossos parceiros cair.

11 Sept 2011

Nós e os outros

Os gregos não prestam, toda a gente sabe isso. Era óbvio que isto ia acontecer. Ajudar a Grécia é apenas deitar dinheiro à rua, eles não querem trabalhar.

Tudo frases que ouvi, na última semana, a diferentes pessoas em Portugal. Tudo pessoas supostamente informadas que têm o dever de não ceder a preconceitos, que não passam disso mesmo, formas simplistas e, por isso, estúpidas de ver o mundo. Claro que é preciosa a ajuda da irresponsabilidade de tantos responsáveis políticos europeus que insistem em ver a União Europeia como "nós, os virtuosos" e os "outros, os malandros".

Os gregos. Os pretos. Os ciganos. Os judeus. Os portugueses. Os alemães. Como é que estamos ainda aqui, nesta concepção de que um povo, um país, tem características universais que tornam o seu destino, cedo ou tarde, imutável? Se me preocupam as consequências sociais e económicas de um potencial desmembramento da Zona Euro, aterroriza-me que, tantos séculos de atrocidades depois, ainda aceitemos como explicação para o que quer que seja o abjecto "está-lhes na massa do sangue".

26 Aug 2011

Bom senso

O discurso de Ben Bernanke hoje em Jackson Hole tem o condão de lançar definitivamente para a agenda política a necessidade de evitar que uma política fiscal altamente contraccionista (nos EUA e na Europa) ajude a provocar uma nova recessão global. A resolução do problema do excesso de dívida (que será sempre um tema de médio/longo prazo) será muito mais difícil, se não impossível, num cenário de crescimento nulo ou negativo.

Alvalade

Ontem foi o regresso a Alvalade, na esperança de que o nível de sofrimento pudesse ser inferior ao dos dois últimos anos. Foi. Embora, a espaços, desse a sensação de que continuamos sem treinador (como nos últimos dois anos), já deu para voltar a ver - de vez em quando - o Sporting a jogar futebol. Capel tem jeito para jogar e para criar empatia com as bancadas (o que não deve, de maneira nenhuma, ser menosprezado). Izmailov é, sem surpresa, o melhor reforço da época.

Mas era bom que aumentássemos o nível de tolerância para com a equipa. Os assobios foram mais que muitos e isso tem de nos envergonhar, enquanto sócios e adeptos. Se é certo que foram dois anos desesperantes, é preciso dar tempo quando se está a construir uma equipa quase de raiz. É verdade que a insistência em Djaló e Postiga desafia a compreensão humana. Mas, se não há nunca justificação para assobiar aquelas camisolas, ainda menos quando é claro que o que é preciso é tempo e apoio incondicional.

25 Aug 2011

2 lições da semana

1) Nunca deixes que o ressentimento perdure e te domine.
2) Evita que a natural presunção da boa-fé alheia resulte em que te apanhem desprevenido.

24 Aug 2011

Confusos?

Sim, é preciso reduzir o nível de endividamento. E sim, austeridade em excesso é a melhor maneira de garantir que os níveis de endividamento não serão reduzidos. Confusos? Não se preocupem, os líderes europeus também.

23 Aug 2011

Desta para melhor

"com esta da austeridade, meu senhor, nem sequer dá para ir desta pra melhor", cantava Sérgio Godinho há uns anos, e cheio de razão. Ignorando o significado corrente da expressão, é difícil perceber como é que medidas de austeridade de toda a gente ao mesmo tempo nos levarão, literalmente, desta para melhor.

Sem crescimento ou inflação, por todo o mundo desenvolvido estar a contrair simultaneamente a política fiscal, vamos todos ficar (muito) mais pobres e tão (ou mais) endividados do que no início desta crise. E, mais grave, colocamos o processo de integração europeia cada vez mais em risco. É que casa onde não há pão, e tal.

20 Aug 2011

Fim de férias (III)

E para fechar a estadia no Algarve, uma tempestade das antigas: vento, chuva, relâmpagos e trovões. É para eu não notar a diferença quando os mercados abrirem na 2ª feira, aposto.

19 Aug 2011

Fim de férias (II)

Ver o ouro em máximos históricos ao mesmo tempo que as taxas de juro de países considerados refúgio (EUA, Alemanha) atingem mínimos é o pior sinal que poderíamos ver. Receios de recessão global e de saúde do sistema financeiro. Vai ser um regresso interessante. No sentido da maldição chinesa, claro.

Fim de férias

Tudo parece mais simples frente ao mar, talvez por que sei ser apenas um momento de pausa.

2 Aug 2011

Álvaro

Quando o Álvaro aceitou ser ministro da economia e de mais uma data de coisas, escrevi que ia ser engraçado ver o choque entre tudo o que andou a defender na campanha e a realidade do que é ser responsável pela governação de uma área fulcral para o nosso país. Enganei-me.

Não tem nada de engraçado ver um rol de soundbites - como a reforma ao Sol, a Flórida da Europa ou as exportações representarem 50% do PIB - serem apresentadas como algumas das pedras-chave da política do governo para esta área. Ainda menos, acompanhadas da deselegância profunda de mandar umas bocas sobre a "opulência" encontrada, ao mesmo tempo que tenta justificar o salário de uma nova "super" chefe de gabinete. Se já estávamos conversados sobre as políticas, ficámos agora conversados sobre o estilo que podemos esperar.

Entre a frigideira e o fogo

Temos um número crescente de países a ter de diminuir o nível de dívida utilizado (pública e privada, embora esta última nunca esteja nos radares políticos e noticiosos), depois de décadas de excessos e da necessidade de conter a crise financeira global de 2008. O "bom caminho", elogiado por quem insiste numa concepção mesquinha da economia, é representado pela austeridade - diminuir a dívida através de cortes na despesa do estado e das famílias e as comparações com um orçamento familiar pululam por aí, sempre num tom muito educativo. De facto, se o nível de receita e despesa no meu orçamento familiar estiver desequilibrado, eu posso cortar a despesa até chegar ao equilíbrio, sem levar em conta o impacto que esse corte terá na parte da receita. Já quando temos uma contracção simultânea na despesa de todos os agentes (estado incluído), não é difícil perceber que isso tem um impacto na economia, isto é, nos rendimentos de toda a gente. Daí o paradoxo que se verifica quando todos os agentes aumentam simultaneamente a sua taxa de poupança: a taxa de poupança sobre o rendimento, de facto, diminui. Ou seja, a austeridade, quando aplicada de uma forma cega e moralista, corre o sério risco de nos tornar a todos mais pobres e tão ou mais endividados do que estávamos quando iniciámos o processo.

Temos, assim, uma dívida insustentável e uma solução que, pelo seu radicalismo, tende a piorar o problema. Deixarmos que surjam taxas de inflação mais altas (uma heresia só comparável a defender que o estado tem um papel a desempenhar na economia), pode bem vir a ser a única solução que nos resta. Mas isso implicaria uma reformulação total das actuais instituições europeias.

22 Jul 2011

Tempus fugit, no entanto

Morgan Stanley strategists led by Hans Redeker, head of foreign- exchange strategy in London: ‘‘What we did hear out of Brussels does not convince us that euro markets can remain stable for long. While the EFSF now has the flexibility required to deal with the challenges of protesting credit markets, the size of the EFSF has not been increased, leaving markets guessing how long it may take before this market-calming instrument may run out of funds’’

Bank of Tokyo-Mitsubishi UFJ Ltd.’s Lee Hardman, a currency strategist in London: ‘‘The plan falls short of achieving debt sustainability with debt to gross domestic product ratios for Greece, Portugal and Ireland still likely to remain comfortably above 100 percent. A continuation of solvency concerns will leave the door open for contagion fears to rebuild. Beyond the new bailout euphoria, relative economic fundamentals are turning against the euro with growth in the euro-zone slowing sharply’’

E agora, Europa?

A União Europeia poderá ter comprado algum tempo com a cimeira de ontem. A demonstração de unidade e de vontade em enfrentar o problema é, por incrível que pareça, uma novidade. O facto de vir tarde, e desse atraso ter custos muito significativos (entre os quais a necessidade de realizar uma intervenção externa em Portugal), não faz com que esta resposta deixe de ser uma boa notícia.

No entanto, e muito ao jeito destas cimeiras, há respostas fundamentais que não foram dadas. Para que o fundo europeu funcione como uma barreira de protecção a países como Espanha e Itália, vai precisar de bolsos bem fundos, à semelhança do que aconteceu com o TARP. Estão os países europeus (com a Alemanha à cabeça) na disposição de desembolsar os fundos necessários? O ignorar do impacto de uma potencial declaração de um evento de crédito na Grécia (bem como a promessa de este ser o último pacote de ajuda) também parecem ser consequência do wishful thinking que muitas vezes domina os corredores de Bruxelas.

Ainda assim, os mercados parecem estar, para já, a dar o beneficio da dúvida à solução apresentada. Convinha que este fosse usado para tentarmos resolver alguns dos problemas de arquitectura institucional que são causa, tanto do problema, como da incapacidade de resposta até agora. A redefinição do papel do BCE, passos progressivos de harmonização fiscal e uma visão global, e não país a país, dos desequilíbrios existentes, são essenciais para que o tempo da União Europeia não venha a ter um fim abrupto.

14 Jul 2011

Era bom

O impasse domina a actualidade, tanto na resolução da crise de dívida soberana na União Europeia, como no aumento do tecto de dívida nos EUA. Qualquer um destes problemas tem consequências sistémicas que, honestamente, ninguém pode prever.

Era bom que não estivéssemos todos, dentro de poucos meses, a perguntar como foi possível tamanha irresponsabilidade de tantos ao mesmo tempo. Até porque, mesmo não sendo politicamente fáceis, as soluções existem. Manter o impasse é o que menos interessa a todos.

13 Jul 2011

Risco alto

Todos sabemos que, mais cedo ou mais tarde, a União Europeia vai ter de fazer uma escolha. As não-soluções que foram sendo apresentadas desde o início da crise grega foram sempre entendidas, por todos, como um sucessivo adiar do problema, até serem reunidas umas "fantasiosas" condições que nunca ninguém explicou quais seriam.

O tempo para continuar a adiar chegou ao fim. A mensagem que os investidores em dívida pública de países europeus fizeram passar durante as últimas duas semanas foi clara: a inacção europeia faz com que cada país da zona euro seja avaliado exclusivamente pela sua capacidade em cumprir o pagamento da respectiva dívida, ainda para mais num contexto de sinais visíveis de recuo no processo de integração a que assistimos nas últimas décadas.

No entanto, entre o desejo por uma solução e a capacidade de a realizar, há um bom número de obstáculos. O acordo de um número grande de países, com calendários eleitorais diversos, obriga a uma gestão para a qual já não existe tempo. Acresce que em parte desses países, a opinião pública foi bombardeada com a demagogia da dicotomia moral entre os virtuosos do Norte e os preguiçosos do Sul. Agora o discurso vai ter de ser totalmente invertido, alertando finalmente os eleitores para o facto de os custos de uma solução serem muito inferiores aos catastróficos custos de um desmantelar da zona euro (sim, é isso que está em causa). Só podemos esperar que não seja tarde demais.

11 Jul 2011

Assis e a afectividade

«Repugna-me a ideia de que é possível transformar a vida política num imenso magma de afectividade, porque isso é a redução e a destruição da política. A política não é a dimensão do afectivo, isso é outra dimensão das nossas vidas. A política é a dimensão da discussão das ideias, do debate, da contraposição, das convergências e divergências em torno de projectos, de ideias e propostas»

Concordo muito com estas palavras de Francisco Assis, que fui buscar à notícia da TSF. E, já agora, outra coisa que me repugna é o aproveitamento que está a ser feito através de títulos enganadores, próprios de quem apenas vive do (e no) soundbite.

7 Jul 2011

É pena

Pensar dá imenso trabalho. Mais ainda quando corremos o risco de chegar à conclusão que estamos errados.

6 Jul 2011

Moody's

A Moody's diz, resumidamente, três coisas:

1) A deterioração da situação na Grécia pode vir a ter consequências graves para Portugal e continua a não existir uma solução sistémica por parte da Europa para o problema da crise de dívida soberana.
2) As medidas contidas no memorando de entendimento têm um elevado risco de execução e não é claro que tentem resolver no longo-prazo o principal problema da economia portuguesa: o fraco crescimento económico (no curto prazo, estas medidas são obviamente recessivas).
3) O grau de alavancagem do sistema financeiro português é uma potencial preocupação acrescida para as contas públicas portuguesas.

Tenho as maiores reservas relativamente ao actual papel das agências de rating no sistema económico global, nomeadamente em relação às profecias auto-realizáveis. Mas dizer que não existem argumentos para um corte de rating (a dimensão do corte é outra discussão) pertence à já típica estratégia do pensamento mágico.

Coisas que deviam ser simples

Quando estamos anos a afirmar que a acção concreta de um governo (e em especial de uma pessoa) é a única causa de todos os males, não nos podemos depois queixar de sermos avaliados pela mesma bitola.

Sim

Nove anos depois, continuas a salvar-me todos os dias.

4 Jul 2011

Política

O tom de governo de salvação nacional a que assistimos no final da semana passada, durante o debate parlamentar sobre o programa do governo, era de esperar. Assenta particularmente bem às bancadas que formam a actual maioria, de repente imbuídas de um espírito de apelo à responsabilidade que, curiosamente, descobriram agora ser importante para o destino do país.

Mal estaria a oposição, e aqui refiro-me ao PS, se decidisse usar o mesmo tipo de tácticas (criadas pelo PSD, PR e outras forças vivas da nação) que levaram à queda do anterior governo e ao agravar significativo da crise em que estamos mergulhados.

No entanto, não faltava mais nada que se equivalesse a legitimidade para governar ao pedido de um comportamento por parte da oposição que, sob a capa de uma "posição responsável", significasse a anuência a todas as medidas que este governo pretenda implementar. Não só porque nem tudo foi sufragado em eleições - qual o custo eleitoral do corte do subsídio de Natal? -, como também porque se não existem grandes dúvidas sobre a necessidade de reduzir a despesa pública, a forma como esta redução será feita é tudo menos irrelevante. A unanimidade desejada por alguns é, cedo ou tarde, o pesadelo de todos. A "salvação nacional" só pode vir do confronto de ideias. Da Política, portanto.

29 Jun 2011

Tacanho, sim, mas what else is new?

O presidente da república portuguesa, uma pequena economia aberta, apela a todos que consumamos apenas produtos portugueses, incluindo férias. Dado que as exportações (isto é, o consumo dos outros países) representam a única saída para uma economia em contracção devido aos cortes orçamentais, não sei bem o que diga disto. Estúpido, embora não surpreendente.

21 Jun 2011

Custo de oportunidade

O custo de oportunidade é uma noção que escapa demasiadas vezes à discussão política. Quando se fazem as contas ao custo da ajuda à Grécia, repetindo-se até à exaustão que serão os países "ricos" da Europa a suportá-lo, poucas pessoas têm em conta qual é o custo, para esses mesmos países, de deixar a Grécia entrar em incumprimento. Resolver a situação grega (e a irlandesa, a portuguesa, a espanhola e o que mais virá) só acontecerá de vez quando os políticos europeus se aperceberem finalmente do desastre que aconteceria, essencialmente via sistema financeiro, ao actual nível de vida de todos os países europeus.

Podíamos ter evitado chegar aqui? Sim, se o optimismo típico de quem acha que os desequilíbrios macro-económicos se podem manter eternamente não tivesse vencido na altura da criação da zona euro. Ou então, numa sugestão verdadeiramente peregrina, se as regras sobre défices orçamentais e dívida/PIB que existem desde o início, tivessem alguma vez passado de boas intenções.

A zona euro, junto com os seus problemas, foi criada por todos os países envolvidos. Agora não vale assobiar para o lado.

20 Jun 2011

Falhar

“There are few things more liberating in this life than having your worst fear realized. Whether you fear it or not, true disappointment will come but with disappointment comes clarity, conviction and true originality.”

Do discurso de Conan O'Brien à classe de 2011 de Dartmouth. Vale muito a pena ver.

17 Jun 2011

A crise que não existia mas agora existe

Fantástica a mudança de tom a que temos assistido na explicação dos problemas que Portugal enfrenta. Foi preciso mudar de governo para a nossa comunicação social e maioria dos comentadores políticos e económicos adquirir, finalmente, o bom-senso de entender que a crise em Portugal tem tudo a ver com a crise financeira global de 2008, as medidas tomadas por todos os países para a combater e com a crise de divida soberana daí resultante. É bom ver que o estado de negação, agora que o objectivo foi conseguido, está a desaparecer.

16 Jun 2011

Independentes

Fico um bocado confuso com esta coisa dos independentes. Aparentemente aplica-se a qualquer um que não seja de facto militante de um partido. Se não percebo o que estar filiado num partido tem a ver com independência, ainda me espanta mais que este estatuto, da superioridade do independente, seja usado pelos próprios partidos, desqualificando de forma automática todos os respectivos militantes para dependentes, ou assim.

Gostamos demasiado de usar rótulos. É pena.

Bright vs Dark

Uma vez que já tudo se perdeu

Que o medo não te tolha a tua mão
Nenhuma ocasião vale o temor
Ergue a cabeça dignamente irmão
Falo-te em nome seja de quem for

No princípio de tudo o coração
Como o fogo alastrava em redor
Uma nuvem qualquer toldou então
Céus de canção promessa e amor

Mas tudo é apenas o que é
Levanta-te do chão põe-te de pé
Lembro-te apenas o que te esqueceu

Não temas porque tudo recomeça
Nada se perde por mais que aconteça
Uma vez que já tudo se perdeu

Ruy Belo

Num fabuloso espectáculo dedicado aos poetas, esta foi a segunda música ouvida ontem. Um dos meus poemas preferidos.

15 Jun 2011

Logo à noite


Música de Palavra(s), no cinema S. Jorge

Da resposta da Europa à crise grega

"Something will turn up". Charles Dickens, the Victorian novelist, made the expression famous 160 years ago when he put it in the mouth of Wilkins Micawber, the perennial optimist of David Copperfield.

Início do editorial do FT de hoje, ainda não disponível online

14 Jun 2011

Tempo

Mais tarde ou mais cedo, algum dos países periféricos vai mandar, via eleições, os planos de austeridade às urtigas. Não é uma questão de um default ter menos impacto na vida das pessoas do que os planos de austeridade. Não tem. A acontecer, será bem mais violento. Mas os planos feitos pelas autoridades internacionais têm o tempo a correr contra eles. Demoram anos a fazer efeito, algumas das medidas não são nada lineares em termos de sucesso, é tudo para o longo prazo.

No curto-prazo temos a diminuição do rendimento disponível, economias em recessão imediata e o desemprego a subir ou manter-se em níveis altos. Um ano disto, dois anos disto, e depois? O argumento "tem que ficar pior antes de melhorar" só funciona no curto-prazo.

Na falta de uma solidariedade europeia, que cada vez mais se verifica não existir, vamos ficar surpreendidos quando estivermos a olhar para o colapso da UE?

Notícias em estado de graça

Vou lendo em todos os jornais que ainda não há nomes para o governo, porque Passos Coelho só fará convites depois de ser formalmente indigitado como PM.

Bem sei que o homem também tem direito a um estado de graça, mas caramba... É preciso ser mesmo ingénuo para acreditar e reproduzir alegremente que ninguém foi convidado ainda.

No bright side

Sinto-me a medinacarreirar na questão da crise de dívida soberana europeia. Não consigo encontrar um cenário de solução que não implique custos entre o incalculável (desmembramento da zona euro) e o inaceitável (anos de recessão prolongada nas economias periféricas, sem benefícios visíveis para estas).

10 Jun 2011

Dia de Portugal, e tal

Tenho com Portugal a relação que se esperaria por ser o país onde nasci e vivi até hoje. Gosto de muitas coisas, bastante menos de outras. Mas não consigo compreender o orgulho de ser português, como se isso fosse fundamentalmente diferente de ser espanhol, mexicano ou indiano. Como se todos os povos não tivessem coisas de que se orgulhar e de que se envergonhar.

Assumir que ser português é motivo de um qualquer orgulho especial implica, para mim, assumir uma superioridade que nunca senti. Ainda assim, sempre é um feriado.

O sonso

Temos um PR que exerce cargos políticos desde o início da década de 80, ao mesmo tempo que critica a classe política em cada discurso que faz, como se não lhe pertencesse. Que considera estar acima de qualquer escrutínio, mesmo estando envolvido em negócios que levantam questões legítimas. Cuja concepção de democracia equivale à sua famosa frase: "duas pessoas de boa fé e com acesso aos mesmos dados chegam necessariamente à mesma conclusão" (cito de memória). Que faz um discurso pleno de ressentimento na exacta noite em que é reeleito presidente de todos os portugueses.

Sonso não é uma palavra meiga para mim, como é fácil de perceber.

Coisas que deviam ser simples

É assim tão difícil perceber a diferença entre normal e comum?

9 Jun 2011

80 anos

Têm olhado para o comportamento dos mercados financeiros recentemente?

Agora que a campanha acabou, era bom que percebêssemos de vez que cumprirmos as medidas que nos são exigidas é condição necessária, mas não suficiente, para evitar uma reestruturação da dívida portuguesa.

É que o facto de passarmos a ter uma maioria política, mais do que comprometida com as medidas do MoU, não parece ter alterado grande coisa na percepção do risco de credito português.

O maior risco é bastante maior que nós próprios. Chama-se Europa.

8 Jun 2011

Coisas parvas

Lembro-me, nos tempos de dirigente associativo na faculdade, de dizer, entre outras coisas parvas, que os jotinhas deviam ser proibidos de exercer qualquer actividade política no futuro. Mal sabia eu.

Desilusão

Há uma maioria clara de direita para os próximos quatro anos, embora estes estejam longe de ser quatro anos típicos. Só António Costa conhece as razões de não assumir agora o desafio de se candidatar à liderança do PS, mas esse (não) gesto tem uma leitura de calculismo político.

E isso chateia-me. O PS deve estar orgulhoso de tudo o que foi feito nos últimos seis anos, que foi muito mais do que os erros que foram cometidos. António Costa era um rosto de continuidade, sim, mas diferente o suficiente para criar a distância necessária a um novo líder.

Ficamos assim com António José Seguro, que espera há muitos anos esta oportunidade. Mas, lamento, não me parece que mobilize ninguém fora das tais bases que supostamente o apoiam. E com Francisco Assis, que respeito e foi um líder parlamentar extraordinário, mas que não deverá ser capaz de contrariar o momento de António José Seguro.

A sensação de que o melhor PS - na minha opinião, claro - se vai guardar para tempos mais auspiciosos é uma desilusão. Porque o que foi feito nos últimos 6 anos merece ser realçado e porque os próximos dois anos exigem uma oposição particularmente eficaz às tentações de uma direita reforçada pela maioria confortável que obtiveram e pelo momento peculiar que vivemos.

7 Jun 2011

Às vezes encontram-se coisas assim

Um espanto.

Do silêncio

A evolução dos juros da dívida portuguesa tem muito mais a ver com o que se passa na Europa - em especial na Grécia - do que com o governo português. Isto, que é claro desde o início da crise da dívida soberana, foi durante toda a campanha e pré-campanha desmentido por inúmeros blogs e comentadores afectos à agora nova maioria saída das eleições.

Ora, a pergunta é: se o culpado era o Sócrates, como explicar isto: Juros da dívida sobem para máximo histórico no prazo a 10 anos?

Corporações

Ontem assisti apenas ao início do Prós&Contras - um programa entre o alucinado e o mortalmente aborrecido. Deu para ver, no entanto, aquilo que é claro para quem queira ver. Cada vez que se falava numa área ou num sector da economia que vai ser afectado pelas medidas do memorando de entendimento, lá surgia a corporação respectiva a dizer "não, aqui não é preciso fazer nada, nós somos muito eficientes/importantes/...".

Há quem esteja muito preocupado com o aumento da contestação de rua que, provavelmente, vai acontecer. Eu, confesso que estou mais preocupado com a contestação das diversas corporações que, se calhar também por ser bem menos visível, tende a ser terrivelmente mais eficaz.

6 Jun 2011

Umbiguismo reloaded

Como à espera do comboio, na paragem do autocarro. Esta frase, de uma letra de Sérgio Godinho, volta a estar no cabeçalho deste blog. Porque me sinto assim às vezes, de forma consciente no sítio errado aguardando o que sei que não vai acontecer.

Leitura

"E o PS? Dinamitadas as pontes por onde poderiam atravessar as caravanas do consenso, não se lhe peça que dobre a cerviz. Impossibilidade genética, a que se junta a tentação de ser oposição sem culpa. Sem culpa mas com honra, cumprirá aquilo a que se obrigou, nem menos nem mais. Não lhe peçam para segurar no estribo de cavaleiros de reformas de vingança e ódio, revisões constitucionais aventureiras, e destruições daquilo por que sempre se bateu, ainda mais agora."
António Correia de Campos, no DE

6 de Junho

Nunca fico triste com eleições. Estes resultados dão um mandato claro à direita, através de uma maioria absoluta confortável, para formar governo e implementar o seu programa. Espero, sinceramente, que tenham consigo próprios a mesma tolerância que demonstraram com o anterior governo eleito. Sem desculpas, portanto.

4 Jun 2011

Dia estranho

Este dia de reflexão, em que os órgãos de comunicação social fingem que não escolhemos o nosso futuro amanhã, custa-me sempre um bocado.



3 Jun 2011

Herança

A pior herança dos últimos anos da política portuguesa é o clima de suspeição, insinuações e ódio destilado, diariamente, pela oposição, corporações e alguns órgãos de comunicação social. E é a pior, não pelos efeitos negativos que teve sobre um partido específico, mas porque corre o risco de deixar escola, mesmo que ocorra uma mudança política nas eleições de domingo.

So true





2 Jun 2011

5 de Junho (2)

Em verdade nada tenho a acrescentar em relação ao que escrevi aqui. A campanha serviu-me apenas para reforçar duas ideias: 1) os partidos à esquerda do PS mantém-se no seu próprio mundo, sem capacidade e vontade de fazer parte de uma solução realizável para o país; 2) a possível maioria absoluta de direita (a acreditar nas sondagens) representa a ameaça de um retrocesso significativo em muito do que bom foi construído nos últimos anos, por exemplo na educação, na saúde e nos mecanismos de mobilidade social.

Assim, votar no domingo conta cada vez mais.

31 May 2011

É isto

Escolhas. Ser livre para as fazer. Ter a coragem para ser livre, mesmo que todos, ou muitos, à tua volta não as compreendam por verem as tuas acções através apenas dos seus olhos. Perceber que apenas em liberdade, as tuas escolhas têm algum significado. Escolhas.

30 May 2011

Lucky you


Política

Estamos a discutir personalidades, quando devíamos estar a discutir política. Se é verdade que as pessoas são importantes, esta tendência para "pessoalizarmos" em excesso a democracia - crendo que uma pessoa, aquela pessoa, nos salvará ou nos está a condenar, é um erro que nos sai caro.

Estão em cima da mesa modelos alternativos de sociedade. Visões diferentes sobre as causas da pobreza, do desemprego, do modelo que nos pode permitir voltar a crescer, e da forma como esse aumento de riqueza deve (ou se deve, sequer) ser distribuído. Focarmos campanhas eleitorais em 1, 2 ou 3 pessoas e respectivas características de carácter e não nas ideias que defendem, diminui inclusivamente a possibilidade de avaliarmos se, depois de eleitos, as opções tomadas são coerentes com o que escolhemos através do voto.

Chateia-me ter de continuar a escrever isto, como se não fosse uma evidência.

29 May 2011

Banzo

Fico banzo com a tentativa de passar a mensagem de que tudo o que de mau se passa neste país é culpa de apenas uma pessoa. Será que acreditam mesmo que as pessoas são atrasadas mentais?

Lost

"Dance, dance, otherwise we are lost", ouve-se Pina Baush dizer no fim do filme que Wim Wenders realizou sobre a sua obra.

Impressionante a paixão que transpira, a urgência de nos fazer sentir. Se ainda não viram, vale muito, muito, a pena.

27 May 2011

Europa

Estas eleições decorrem numa altura em que a União Europeia vive uma crise sem precedentes, com consequências que podem ser desastrosas para todos, caso continue a prevalecer a cegueira dos interesses individuais imediatos de alguns países contra o que é o óbvio interesse colectivo.

Que esse tema esteja, de forma geral, ausente da campanha é explicado pela narrativa criada pela oposição: tudo o que aconteceu nesta crise é culpa exclusiva de Sócrates e quem disser o contrário é, obviamente, mentiroso. Esta narrativa tem ainda o efeito perverso de reforçar quem, lá fora e cá dentro, resume os desequilíbrios macro-económicos presentes no espaço europeu a um problema moral dos povos do Sul (que gostam de gastar mais do que produzem, yada, yada, yada...).

Não perceber, ou recusar, o contexto em que estamos inseridos não é só triste. Infelizmente, é também perigoso para a credibilidade de qualquer futura solução governativa.


Tudo tem uma explicação

A gaffe do novo referendo à IVG, a história sobre o concurso público que tinha tido um "feliz contemplado" que era afinal a Universidade Católica, os avanços e recuos típicos de quem não fez as contas relativamente à descida da TSU... Até percebo que Passos queira liberalizar os despedimentos. Deve estar a pensar nos seus assessores, com certeza.

24 May 2011

Campanhas

Não sei se a política de terra queimada que este PSD tem vindo a usar na campanha é mesmo uma questão de estilo, ou apenas uma reacção ao facto de estas eleições estarem a ser mais renhidas do que o que era previsível quando a crise política foi desencadeada.

O que sei é que o insulto ao adversário através de comparações abjectas e a insistência em reduzir tudo - mesmo tudo - a ataques ao carácter, em vez de estarmos a discutir que país queremos depois de 5 de Junho, baixa cada vez mais o nível da política portuguesa. E isso tem consequências demasiado sérias para quem quer que seja o partido escolhido para governar.

23 May 2011

E agora, Europa?

Que surpresa. É triste os líderes europeus precisarem dos mercados para chegarem à conclusão que a "solução" de sucessivos pacotes de austeridade sobre as economias em maior desequilíbrio, conjugado com empréstimos a taxas de juro elevadas (com doses massivas de moralidade à mistura), não resolvem o problema, só o agravam.

Populismo

Ontem Passos Coelho dizia que as críticas feitas por Sócrates ao programa do PSD na área da saúde eram um sinal de desespero, porque vinham de alguém que encerrou maternidades e centros de saúde em vários pontos do país.

Isto é populismo no seu nível mais baixo. A não ser que Passos Coelho ache mesmo que esses encerramentos não representaram uma efectiva melhoria da saúde pública em Portugal. Altura em que passa a ser apenas ignorância. O que, para um potencial primeiro ministro, é ainda mais grave.

19 May 2011

TSU e pensamento mágico

O pensamento mágico surge quando achamos que por desejarmos muito que uma coisa aconteça ela vai mesmo acontecer, sendo a realidade em que esse desejo se insere algo meramente acessório.

Isto acontece muito no ensino da economia. Muitos dos modelos e teorias em voga simplificam até à exaustão para terem os resultados que são esperados à priori. Se em termos académicos, tal não é especialmente grave e pode ajudar a entender um mundo cada vez mais complexo, quando passamos à aplicação prática - isto é, política - de tais medidas, tudo muda. É que a política tem de lidar com a realidade. E o enviesamento ideológico generalizado do ensino da economia dá credibilidade a estudos com pouca ou nenhuma aplicação real.

O defesa da taxa social única tem características de pensamento mágico. Para além da dificuldade em colmatar a receita perdida com um eventual corte num contexto orçamental dramático (esquecendo assim o contexto em que tal medida seria aplicada), trata-se essencialmente de dar liquidez ao sector empresarial. Que, assim, é suposto ser mais competitivo nas exportações - através de uma redução dos custos com o trabalho.

Ora, era importante perceber se os custos com o trabalho são uma parte relevante da falta de competitividade portuguesa. Não conheço dados que o sustentem e custos salariais elevados não me parece ser um problema premente em Portugal. Para além de que competir via baixos custos salariais é uma estratégia, como dizer..., parva (por ser impossível ganhar essa batalha, felizmente, aliás). Mas fundamentalmente, nada garante que a descida da taxa social única não seja apenas um cheque em branco dado pelos contribuintes às empresas do país. Até podemos acreditar que as empresas façam a coisa certa e produzam e exportem mais e contratem mais pessoas, mas não creio que estejamos em altura de apostar recursos dolorosamente escassos em wishful thinking.

17 May 2011

Sabedoria

Vem no Kierkegaard: casa ou não te cases, vais arrepender-te; ri-te ou chora com a estupidez do mundo, vais arrepender-te; confia numa rapariga ou não confies nela, vais arrepender-te; mata-te ou não te mates, vais arrepender-te. «A isto se resume, cavalheiros, a sabedoria».
Pedro Mexia, Lei Seca

Verdade. A partir do momento em que incorporas esta sabedoria na tua vida tens mais condições para ser feliz.

Tahrir



Vale muito a pena este livro: Tahrir - Os Dias da Revolução, relato no local escrito pela Alexandra Lucas Coelho. Vivi aqueles dias, com o simplismo de quem vê de fora e sabe quase nada sobre o Egipto, emocionado com o que se passava. Os posts e fotos que a Alexandra ia colocando no facebook contribuíram muito para isso, porque mostravam a verdadeira força daquela revolução: estava a ser feita por pessoas comuns, plenas de coragem, sem uma agenda reivindicativa que não passasse em exclusivo por reclamar o direito à dignidade, outra forma de dizer liberdade.

Incerteza

"One can see how difficult it is to get policy right when the forces are so strong and conflicting. The risk of a policy error must surely be higher under these circumstances. On Thursday of last week we discussed how from our recent client meetings the deflationists were starting to be heard more than in recent months. Overall there are still more worried about inflation but the fact that one can build a rational argument for both outcomes shows the delicate nature of this particular cycle."

Lido hoje numa nota de mercados sobre inflação, mas com aplicações mais vastas. É pena que assumir a incerteza tenha custos políticos tão elevados.

10 May 2011

5 de Junho

Sócrates, Sócrates, Sócrates. Aparentemente a nossa democracia evoluiu para um sistema em que existe apenas uma pessoa. Que é responsável por tudo. Ao ponto de existir quem sugira que todos os problemas do país se resolveriam com o seu afastamento. Ou ao ponto de termos partidos políticos que se recusam a dialogar com o PS, caso este não escolha outro líder (a falta de cultura democrática assim demonstrada já fez correr muita, e boa, tinta).

As eleições têm a ver com responsabilização política. Quem deteve um determinado cargo deve ser responsabilizado nas urnas pelas opções que tomou e pelo fracasso ou sucesso dessas opções. Mas há mais, claro que há mais. Convém que exista uma visão para o que aí vem. Numa altura em que as escolhas políticas estarão necessariamente condicionadas ao Memorando de Entendimento assinado com a CE/FMI/BCE, parece ser quase indiferente quem estará no governo nos próximos anos. Nada mais errado. A intervenção externa cria condições para que parte significativa do Estado Social que temos actualmente seja desmantelado. Há tempos escrevi aqui que reformar o Estado Social - garantindo que seja mais eficiente e mais focado no que é fundamental - era o melhor que podíamos fazer para garantir que este não acabaria.

O acesso universal a educação e saúde de qualidade e mecanismos de protecção que respondam, na medida do possível, a situações de miséria, são parte integrante do país em que quero viver.

O cumprimento das metas traçadas no Memorando de Entendimento, essenciais para sanear as nossas finanças públicas é, assim, tão importante como o país que queremos ser depois de efectuadas as reformas nele contidas. Pelo menos nesse aspecto, o voto de 5 de Junho é tudo menos indiferente.

26 Apr 2011

Este post é de 2004 - mas é isto, que querem?

Espaço de sonho


No dia 25 de Abril de 1974 eu ainda não tinha nascido. O meu Abril, aquele que me formou, foi criado pelos meus pais, pelos valores que me transmitiram, pela festa que faziam sempre que se comemorava o Dia da
Liberdade.
Lembro, com demasiada saudade, os ramos de cravos vermelhos com que a minha mãe enchia a casa, estivéssemos ou não, em Abril. Lembro quando me mostraram a voz quente do Fernando Tordo a cantar a poesia de José Carlos Ary dos Santos: “O povo não é livre em águas mornas / Não se abre a Liberdade com gazuas”. Lembro-me de ouvir, com eles, vezes sem conta, Zeca Afonso, exemplo máximo dos trovadores de Abril. Talvez por isso, ainda hoje me sinta um “Filho da Madrugada”.
O 25 de Abril é, para mim, um espaço emocional, porque não o vivi. Um espaço de sonho, de inocência, de acreditar que tudo é possível. O primeiro momento, o momento fundador, de todos os ideais em que acredito. Liberdade. Democracia. Solidariedade. Paz.
Neste dia, 25 de Abril de 2004, quero dizer obrigado e prestar homenagem aos militares que souberam dizer basta. E aos meus pais por terem criado, para mim que só nasci depois, esse espaço de sonho.

15 Apr 2011

Poderosos, estúpidos e essenciais

Os mercados são em simultâneo poderosos, estúpidos e essenciais. Poderosos porque têm o poder de fazer com que aconteça uma coisa em que acreditam num determinado momento (as tais self-fulfilling prophecy). Estúpidos porque muitas vezes ligeiros e limitados na informação que buscam sobre uma determinada situação. Essenciais porque são uma ferramenta insubstituível no aumento da prosperidade das sociedades.

Isto é uma combinação perigosa, como temos vindo a descobrir. E não vejo uma solução para este problema que não implique mais pobreza e menos crescimento.

13 Apr 2011

Ler

O belo exemplo de Portugal aplicado à discussão orçamental nos EUA., no blog Americam Politics, da The Economist.

LAST month Portugal's parliament voted against a package of austerity measures that would have been necessary to avoid a European Union bail-out. Immediately, the country's costs of borrowing went through the roof. Last Wednesday, Portugal auctioned €1 billion of 12-month bonds at a yield of 5.902%; at the previous auction of €1 billion on March 16th, the yield was 4.331%. Now Portugal will end up having to adopt basically the same package of austerity measures, or something worse, as a condition to receive the European Union bail-out. So their parliament's rejection of the austerity measures cost Portuguese taxpayers €15.71m on that bond issue alone, in return for which they got exactly nothing.

Elogio do confronto

Tendemos a ver a política de uma forma simplista, reagindo mal ao confronto que esta necessariamente gera. Os apelos ao consenso - perante uma situação que é muito difícil - são bem recebidos porque esquecem que a democracia se faz de combate. Idealmente esse combate pelo voto dos cidadãos seria feito a um nível de ideias - como vamos sair desta situação, que prioridades temos para alocar recursos escassos, que tipo de sociedade queremos ser - mas, como sabemos, esse mundo não existe.

Renegar a democracia porque o combate político é demasiadas vezes feito de ataques pessoais e manipulações da verdade, equivale a deitar fora o bebé com a água do banho. Este é mesmo "o pior de todos os sistemas, com excepção de todos os outros". A teoria dos jogos explica bem porque é que uma solução que não optimiza a utilidade de todos os envolvidos é muitas vezes a escolha racional. É que jogar com regras diferentes dos adversários é o caminho mais certo para a derrota.

11 Apr 2011

Nice going, Portugal

O problema das contas públicas dos países da periferia tem anos e não era uma questão até meados do ano passado. Claro que é sempre desejável (agora obrigatório) que a responsabilidade fiscal faça parte das opções políticas que temos de fazer. E que há muito a fazer em termos de consolidação das nossas contas públicas. Mas, lamento dizer, até porque se fosse verdade era mais fácil de resolver, o nosso problema vai um bocado mais longe do que os tão famosos consumos intermédios.

Uma das principais razões da nossa capitulação tem a ver com a alteração sentida na UE relativamente a uma solidariedade que os mercados presumiam como inatacável. Isto é facilmente demonstrável pelo facto de os spreads das diferentes dívidas públicas da Zona Euro terem sido quase idênticos, apesar de situações bem diferentes nos diversos países, até ao início da crise financeira global. O papel fundamental da UE nesta evolução é, aliás, reforçado pela correlação elevada que os spreads dos países periféricos demonstraram no último ano, muito mais sensíveis aos comentários de Berlim e de Paris do que à evolução dos países afectados.

Depois foi só juntar irresponsabilidade no pior momento possível. Reprovar um novo pacote de medidas de austeridade (que tinha um consenso total junto de quem podia evitar que tivéssemos de recorrer a um pedido de ajuda) numa altura em que Espanha começou a descolar da restante periferia em termos de risco de crédito, é de uma estupidez alarmante. Enquanto Espanha tinha também uma percepção de risco elevada, o risco de deixar cair Portugal era demasiado alto, dado o mais que provável efeito de contágio. Desaparecendo essa muleta e juntando a óbvia percepção, pelo menos para o exterior, de que alguns em Portugal preferiram provocar uma crise política em vez de se continuar um trabalho exigente e difícil de controlo das contas públicas, a ajuda externa confirmou-se definitivamente como uma inevitabilidade. Resta-nos negociar um pacote de ajuda no meio dos excessos inevitáveis de uma campanha eleitoral e com interlocutores nacionais sem legitimidade. Nice going, Portugal.

8 Apr 2011

Despedir

Quando os "técnicos" do BCE, UE, FMI, whatever, chegarem a Portugal são capazes de ter uma surpresa desagradável. Excluindo uma saída do Estado de sectores vitais como a saúde e educação (que estão fora de discussão, como para mim é óbvio), o atingir de uma redução significativa da despesa do Estado só se fará através de despedimentos na função pública, cortando gorduras acumuladas ao longo de décadas. O mito dos consumos intermédios desfaz-se rapidamente quando consideramos o seu reduzido peso na despesa pública total.

O preço a pagar será, claro, um aumento significativo da taxa de desemprego - nos próximos anos parece difícil que o sector privado tenha grande capacidade de contratar. Como é que isto se faz em democracia, é uma coisa que ainda ninguém me conseguiu explicar convenientemente.

É mais ou menos isto (III)

É mais ou menos isto (II)

7 Apr 2011

É mais ou menos isto



Ou, como diria o outro, "god is a concept by which we measure our pain".

Ah, a nostalgia

Ora então, vivo mais uma vez num país intervencionado. Bom, bom, era poder passar por mais esta ajuda externa no mesmo estado de espírito em que estava nas últimas duas: em busca permanente de qual seria a próxima brincadeira.

6 Apr 2011

Perder

It's like forgetting the words to your favorite song
You can't believe it, you were always singing along
It was so easy and the words so sweet
You can't remeber, you try to feel the beat


Eet, Regina Specktor

Agir localmente

Há, perto da escola da minha filha, um parque infantil que tem uma área vedada para jogos. Fizeram obras recentemente, nada de especial, pintaram umas marcas de basket no chão e puseram umas tabelas. Desde então, não há vez que passe por lá e não estejam um bando de putos (e mesmo alguns menos putos) a jogar, o que não acontecia porque o espaço estava muito degradado. Simples, provavelmente barato e eficaz. É bom ver estas coisas, no meio da desgraça em que estamos metidos.

1 Apr 2011

Mentira e verdade

A acusação de mentir como arma principal de ataque a adversários políticos não é apenas uma menorização da política - porque acaba com qualquer hipótese de debate de ideias sobre para onde queremos ir e qual o caminho que devemos percorrer. É também perigosa, porque dá força aos argumentos populistas (é tudo a mesma cambada, pá!) e estúpida, dado que não é difícil, em especial em longos períodos de governação (às vezes em curtos), apanhar contradições no discurso de qualquer político, que possam ser classificadas como mentira.

A insistência em conceitos de concretização mais do que duvidosa, como a "verdade" que aparentemente se deseja única e incontestada, como se tal fosse possível, é apenas a outra face da mesma estratégia.

Mais uns sem-noção

E continuamos assim, divertidos. Mais surreal que provocar uma crise política nesta conjuntura, é achar que um governo de gestão (obviamente enfraquecido) deve negociar um pacote de ajuda internacional... Com que contrapartidas? As do PEC4, cuja rejeição na AR levou à queda do governo?

31 Mar 2011

Rir é o melhor remédio

Uma coisa não podemos negar: somos um país divertido. A caminho da tragédia, mas sempre nos vamos rindo pelo caminho. De que outra forma podemos explicar estas últimas duas semanas na vida política nacional?

Equilíbrio

A resposta europeia à crise da dívida soberana tem, essencialmente, um problema: não é uma resposta. Para além dos avanços e recuos que têm existido, deixando os países mais frágeis a cozer em lume brando, olha apenas para o denominador do rácio dívida/pib. Os proponentes de medidas austeridade cada vez mais severas fingem ignorar os efeitos destas sobre a economia, podendo facilmente ser criado um ciclo vicioso em que, ficando todos mais pobres, continuamos exactamente com o mesmo nível de endividamento.

Claro que são precisas medidas de austeridade. Claro que há gastos públicos que não se justificam e são essencialmente desperdício. Mas moralismos e comparações simplistas à parte (a tal ideia de que o Estado deve ser gerido como se fossem as finanças de uma casa), um plano de redução de dívida tem de ser equilibrado o suficiente para evitar anos e anos de uma contraproducente depressão económica.

Existe ainda o risco de demasiada austeridade ser recusada pela maioria de nós, naquela coisa incomodativa que se chama eleições. Acho que nos esquecemos disto mais vezes do que devíamos.

30 Mar 2011

Escolhas

Isto não vai ser bonito, já todos percebemos. A discussão sobre a culpa da situação actual das finanças públicas é interessante, mas inútil dado o clima de campanha eleitoral, em que estamos a viver já há algum tempo.

O pedido de ajuda externa, que era evitável se estivéssemos todos focados nos objectivos que precisamos de cumprir, é agora mais do que certo. Apenas resta a dúvida de quem o vai fazer, o governo de gestão nos próximos dois meses ou o que sair das eleições que aí vêm.

O principal problema prende-se com a perda de margem de manobra para fazermos escolhas políticas que são importantes. Os técnicos que nos vão governar nos próximos tempos, fruto das contrapartidas que teremos de oferecer para receber financiamento, não são muito imaginativos: a receita que nos será aplicada será a mesma de sempre. Vamos cortar onde devíamos e onde não devíamos, retirando protecção às camadas mais frágeis da nossa população. É que, por mais difícil que seja de entender, a parte de leão da despesa pública são transferências de rendimento para pessoas - nas quais se incluem pensionistas, desempregados e uma franja de pessoas abaixo de um limiar de pobreza que, como sociedade, não devíamos tolerar.

"O que tem de ser, tem muita força", costumava dizer a minha mãe. Verdade, mas não precisava de ser à maneira do FMI.

29 Mar 2011

Inquietude

O conforto de ser apenas espectador está a tornar-se insuportável.

22 Mar 2011

União (nacional)

Arrepio-me com os apelos ao consenso, à criação de um governo com vários partidos e assim. Democracia é escolha, convém que ela exista.

21 Mar 2011

Sorry, wrong number

Não me comovem os apelos à responsabilidade, até porque acredito que quem insiste em caminhos perigosos numa fase destas se arrisca a pagar um preço bem alto em futuras eleições. Mas não é pelo facto de agora ser o "meu" lado da barricada a clamar "depois de mim, o dilúvio" que esse tipo de conversa merece mais respeito da minha parte.

Spóquem (4)

Bruno de Carvalho é a escolha óbvia para os meus preciosos 4 votos. Se correr bem, óptimo. Se for tudo uma vigarice o clube acaba em 2 anos, deixando assim de ser uma preocupação.

Vamos a votos?

Continuo à espera das propostas do PSD sobre como cumprir as metas orçamentais estipuladas. É que, das duas uma: ou o PSD ainda não tinha percebido que serão necessárias mais medidas, o que não abona a favor da percepção da realidade na S. Caetano, ou, sabendo, estão a jogar um jogo bem perigoso, dado que qualquer que seja o próximo governo, terá de tomar estas e/ou outras ainda mais gravosas durante os próximos anos.

A luta partidária é o que é e claro que temos de viver com ela. Mas há alturas em que um bocadinho de responsabilidade e de capacidade de não hipotecar a credibilidade futura é capaz de vir a dar jeito. E isto é válido para todos. PS incluído, dado que o grau de inabilidade na negociação e apresentação das novas medidas atingiu também níveis difíceis de compreender.

Atingido este estado de coisas, acho que eleições são mesmo a única solução. Enfrentar uma crise desta dimensão sem uma legitimidade clara ou capacidade de cooperação leal entre todos os envolvidos é, de longe, o pior cenário.

7 Mar 2011

Foi bonita a primavera, pá!





E ainda assim, viva o "erro cósmico"

Discussão

- Desconfio que a democracia não resulta. Juntam-se astronautas, bodes,
camponeses, galinhas, matemáticos e virgens loucas e dão-se a todos os
mesmos direitos.
Isso parece-me um erro cósmico. Desculpa.

Desculpei mas fiquei ofendido. Que a democracia era aquilo mesmo, e ainda
com conversa fiada como brinde, isso sabia eu. Que mo viessem dizer,
era outra coisa.
Fiquei ainda mais ofendido, até porque não gosto de erros cósmicos.
Acho um snobismo.

- Eu sou democrático - rugi entre dentes, como resposta. - Tenho amigos no exílio,
todos democráticos.
Foram para lá por serem democráticos. É um sacrifício que poucos fazem,
ir para o exílio e ser professor universitário exilado e democrático.
Eras capaz de fazer isso ?

- Não sou democrático.

Não havia resposta a dar. nenhuma. Ele não era democrático, não
sabia de democracia.

Eu sim, sou democrático, até já quis ir à América, que me afirmaram que
lá é que é a democracia.

Recusaram-me o visto no passaporte, disseram que eu era comunista!
Viram isto ?

Mário Henrique Leiria
Contos do Gin-Tonic


Vou-me lembrando periodicamente deste texto de Mário Henrique Leiria (autor responsável, aliás, por uma parte relevante da minha formação cívica). As manifestações marcadas para sábado (cujo único tema em comum parece ser a negação da responsabilidade pessoal), o ridículo frémito sentido por aí com a vitória dos "homens da luta" no festival da canção, a incapacidade da oposição em defender ideias concretas sobre como sair da situação actual - sem ser declarações vagas sobre redução de despesa seguidas de votos concretos contra medidas específicas para o fazer -, deixam-me, mais do que perplexo, espantado. Encontrarmos culpados (desde que nunca eu) faz parte da nossa condição. Mas esperava - lirismo, bem sei - que perante um dos momentos mais difíceis das ultimas décadas, fôssemos capazes de alguma coisa um bocadinho melhor que isto. Pelos vistos, não.